SBrT Entrevista

Prof. Edmar Gurjão
Prof. Edmar Gurjão

É com alegria que a Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT) anuncia uma série de entrevistas, conduzidas pelo Prof. Edmar Gurjão, feitas com seus sócios eméritos e seniores, isto é, sócios de seu quadro que possuíram destacada atuação na divulgação e avanço na área de telecomunicações e da própria SBrT. Além de ser uma forma de agradecimento ao trabalho efetuado por essas pessoas, objetivamos registrar histórias, algumas de suas opiniões e conselhos.

Dando prosseguimento às entrevistas, temos o prazer de ter como novo entrevistado o Prof. Max Henrique Machado Costa, do qual gostaríamos de agradecer pela presteza em responder as nossas perguntas.

Entrevista com Prof. Max Henrique M. Costa

Bio:O Prof. Max H. M. Costa é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Brasília (1974). Possui mestrado em Engenharia Elétrica (Universidade Estadual de Campinas - Unicamp - 1977), mestrado em Estatística (Stanford University - 1979), mestrado em Engenharia Elétrica (Stanford University - 1983) e Ph.D. em Engenharia Elétrica (Stanford University - 1983). É Livre Docente em Telecomunicações pela Unicamp (1998). Atualmente é Professor Titular da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). Foi Assessor da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP) e da Vice-Reitoria Executiva de Relações Internacionais (VRERI) da Unicamp de 2013 a 2017. Foi Diretor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação de 2007 a 2011. Tem experiência em Engenharia Elétrica, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nas áreas de Teoria de Informação, Geometria da Informação, Processamento Digital de Sinais e Imagens, Compressão de Imagens e Vídeo e Televisão Digital. É Life Fellow do IEEE e Membro Sênior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT).



1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

Desde uns 11 anos acompanho as atividades relacionadas à exploração espacial, as primeiras naves de telemetria de Vênus e Marte, as Mariners, e sempre me interessei pela tecnologia ligada à transmissão de informação nas grandes distâncias desses planetas. Isto despertou meu interesse em fazer engenharia elétrica e, em particular, estudar as telecomunicações.

2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

Nasci no Rio de Janeiro e cursei lá os anos de primário e o primeiro ginasial (Colégio Pedro II). Meus pais foram para Brasília no início dos anos 60 e por lá eu terminei o ginásio, no GPP-Caseb. Na sequência fiz o Científico no CIEM, um colégio ligado à Faculdade de Educação da UnB. No último ano fui para um ano de intercâmbio pelo American Field Service (AFS) em Morristown, NJ, EUA, estudando na Pingry School. De volta ao Brasil, fiz Engenharia Elétrica (EE) na UnB e o Mestrado em EE na Unicamp. No mestrado tive a orientação do Prof. David Rogers e a co-orientação do Prof. Attílio Giarola. Durante o mestrado, fui assistente de ensino da disciplina Teoria Eletromagnética (EE540), acompanhando o Prof. Ricardo Galvão, que havia voltado de seu doutorado no MIT. Em seguida voltei aos EUA para o doutorado em Stanford, onde conheci o Prof. Thomas Cover, meu orientador e incentivador na área de Teoria de Informação. O Prof. Cover fazia reuniões semanais com seus alunos de EE e de Estatística, onde problemas em aberto de Teoria de Informação e áreas relacionadas eram debatidos com informalidade. Essas reuniões eram muito úteis para motivar e inspirar seus alunos de pós-graduação.

Meu primeiro emprego após o doutorado foi como pesquisador do INPE, o Instituto de Pesquisas Espaciais, em S. J. dos Campos, SP (1983-1988). Trabalhei na MECB, a Missão Espacial Completa Brasileira, que preparou uma bem sucedida missão de dois satélites retransmissores de dados ambientais. No fim dos anos 80 fui trabalhar na General Electric Corporate R&D Center, emSchenectady, NY, EUA, em áreas de telecomunicações e imageamento médico. Nos anos 90, passei um período como Senior Research Associate no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, estudando sistemas simplificados de transmissão de imagens usando a ICT (Integer Cosine Transform).

Em seguida, voltei ao Brasil para uma posição na Unicamp, que iniciava o novo curso de engenharia de computação, em 1995. Nesta época a Faculdade de Engenharia Elétrica passou a ser a Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC). A faculdade provê um excelente ambiente de trabalho que reúne atividades de ensino por talentosos colegas, de pesquisas de ponta em diversas áreas de engenharia elétrica e de computação, e de trabalhos de extensão com vistas a beneficiar empresas parceiras e a sociedade em geral. Fui diretor da FEEC no período de 2007 a 2011, período que considero de grande importância em minha trajetória profissional, pelo aprendizado que me permitiu adquirir com respeito às relações interpessoais e à organização da universidade. Nesta empreitada tive a colaboração inestimável do José Raimundo de Oliveira como diretor associado.

Na FEEC pretendo concluir minhas atividades profissionais.

3. Quer nos falar um pouco sobre o Writing on a Dirty Paper? Por exemplo, qual a repercussão na sua carreira?

A motivação para este resultado surgiu numa das reuniões semanais coma equipe do Prof. Cover. Um de meus colegas, o Chris Heegard, estava estudando a codificação para memórias com defeitos conhecidos dos transmissores. O problema do dirty paper se constitui numa versão contínua, com ruído gaussiano, do problema estudado pelo Chris em conjunto com o Abbas El Gamal, que iniciava uma carreira como professor de Stanford. Fiquei entusiasmado com o problema e passei alguns dias pensando em alternativas de codificação, até que me ocorreu usar uma variável aleatória que combinava linearmente a informação a ser transmitida com o ruído conhecido (não causalmente) pelo codificador. O resultado foi a conhecida expressão da capacidade do canal sem qualquer redução causada pelo ruído adicional. Este resultado foi obtido após a meia noite e me lembro que foi muito difícil pegar no sono naquela noite.

De início o resultado foi recebido como uma curiosidade matemática. Foi a partir de 1999 que começaram as contribuições em aplicações de marcas d’água, steganografia, e codificação de broadcast e do canal de downlink de telefonia sem fio, e que garantiram uma maior disseminação do artigo.


4. Quais suas referências profissionais?

Meu pai (Arnoldo) sempre foi um grande incentivador do trabalho de pesquisa. Perdi papai no último dia 4 de julho. Ele teve uma vida plena de 93 anos. Foi neuro-cirurgião e neurologista nos anos 60 em Brasília, após uma especialização em Freiburg, Alemanha, em traumatismos cranianos. Trabalhou por muitos anos como neuro-cirurgião e neurologista. Se interessou por medicina ortomolecular e escreveu um livro sobre o Magnésio. Em alguns meios era chamado de dr. Magnésio. Mais recentemente concluiu um livro sobre a Taurina, um hormônio que contribui para retardar o processo de envelhecimento. Este livro deverá ser lançado em breve.

Minha mãe (Lucia) também contribuiu com seus exemplos de coragem e generosidade, ambos de grande importância para a atividade profissional, em relação a perseverar e a compartilhar.

Tive excelentes professores e colegas de pesquisa. Além do Prof. Thomas Cover, gostaria de mencionar alguns nomes que me veem à mente, como o Helio Waldman, o Dalton Soares Arantes, o José Mauro Fortes (aposentado da PUC-Rio e colega de doutorado em Stanford), o próprio Chris Heegard que foi professor em Cornell, o Abbas El Gamal, os Profs. Te Sun Han e Rudolf Ahlswede (que nos visitou em Stanford), o Aaron Wyner (do Bell Labs, que também visitava Stanford com frequência).

Mais recentemente tive boas colaborações com o Rico Malvar, da Microsoft, e com o Chandra Nair, da Chinese University of Hong Kong. Ainda hoje tenho trabalhado em parceria com o Chandra Nair em busca da região de capacidade do canal de interferência Gaussiano em Z, um problema que permanece em aberto desde sua formulação original nos anos 70, e que continua a atrair nossa atenção.

Tenho também trabalhado com o José Cândido da Silveira Junior, e estamos escrevendo um llivro, um guia ilustrado para a teoria de informação.

Quero mencionar também as colaborações com meus alunos e minhas alunas de iniciação científica, mestrado e doutorado que sempre se destacaram como verdadeiros parceiros de trabalho e se revelaram como excelentes professores. Agradeço a eles e a elas a oportunidade de colaboração e de aprendizado mútuo.


5. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

A SBrT é uma organização que estimula a pesquisa e o desenvolvimento em áreas de ponta das telecomunicações e de processamento de sinais. Ao se aproximar de seus 40 anos, nossa sociedade pode se orgulhar de um grande legado de suporte ao ensino, à pesquisa e ao desenvolvimento nestas áreas. Por todos esses anos, a sociedade e seus simpósios foram uma importante referência como fórum para a apresentação e o debate de novas ideias geradas por pesquisadores nacionais e internacionais.


6. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

Estava regressando ao Brasil para trabalhar no INPE em 1983, ano do primeiro SBrT. Tive um trabalho no simpósio sobre limitantes inferiores e superiores da equivocação em canais gaussianos, um resultado que usa a concavidade da potência de entropia com ruído adicionado, fruto parcial de meu doutorado.

Os simpósios nacionais e suas periódicas apresentações como simpósios internacionais (os ITS) sempre foram ambientes propícios para o congraçamento de colegas pesquisadores do Brasil e do mundo. Tive muita satisfação em participar de algumas atividades de organização dos simpósios. Em conjunto com o Aydano Carleial participei da coordenação de programa do SBrT-1985 em SJCampos. Fui o tesoureiro do ITS-1998 em São Paulo, no Maksoud Plaza, ocasião em que tivemos um grande retorno financeiro para a sociedade, mesmo com as taxas associadas à parceria com o IEEE. Mais recentemente, com o Aldebaro Klautau, participei da coordenação de programa do SBrT-2016, em Santarém.


7. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

Eu e minha mulher gostamos de viajar. Gostamos também de cinema e teatro. Temos uma casa de montanha em Monteiro Lobato, SP, e gosto das belas vistas e da tranquilidade do lugar. Temos dois filhos, um professor de filosofia (Bruno) e um violinista (André) e gostamos de fazer reuniões familiares sempre que possível. Meu gosto por música é de espectro largo. Gosto de música antiga (Bach), e de música clássica (Chopin). Gosto também de ópera (Puccini), de rock (Elvis, Pink Floyd), jazz (Louis Armstrong, Diana Krall), soul (Ray Charles), country (Willie Nelson), choro (Jacob do Bandolim), e de samba (Cartola e Lupicínio).

Sou um entusiasta e um defensor da democracia. Para informações gerais vejo a TV Cultura, a CNN (original), e leio a Folha de SP. Também vejo o New York Times (online). Gosto de jogar Scrabble (Palavras Cruzadas), em inglês ou português. Costumo jogar Termo, Dueto e Quarteto online. Coleciono nomes de pessoas com todas as vogais. Os nomes masculinos são mais fáceis de achar (Aurélio, Laurentino, Gaudêncio, Eustáquio, e outros), mas só conheço um nome feminino (Eudóxia, quer dizer de boa fama). Nomes de cidades também não são comuns. Há Juazeiro (CE) e Cajueiro (AL). Se descobrirem outros, mandem para mim. Gosto também de estudar línguas, algo que herdei do papai. Tenho me aventurado no italiano.

Não sou um leitor rápido. Gosto de Hermann Hesse, Hemingway, Machado de Assis, e Guimarães Rosa. Estou lendo “Essa Gente”, do Chico Buarque. Também aprecio um bom Cabernet Sauvignon e um bom Malbec.



8. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

Descubra suas paixões. Qual a sua real motivação na engenharia? Problemas de telecomunicação, de automação e controle, de eletrônica, de energia elétrica, de computação? Tente descobrir algo que seja novo e inspirador. Isto pode ser uma motivação para toda a sua carreira.

Fora isso, recomendo uma boa caixa de ferramentas, com uma base sólida das equações de Maxwell, análise de Fourier, cálculo vetorial, e álgebra linear. Há de permitir bons voos.


9. Quais áreas científicas ou tecnológicas o senhor apontaria como norteadoras do futuro próximo?

Não há dúvida que a área de Aprendizado de Máquina vai servir de farol para nortear futuros desenvolvimentos tecnológicos. Algo que considero essencial seria a evolução de algumas abordagens heurísticas e empíricas para um embasamento teórico formal, possivelmente baseado em inferência estatística e teoria de informação.


10. Algo mais que gostaria de comentar?

Desejo grande sucesso à sociedade e às novas gerações de sócios. Que possam continuar a tradição de encontros inspiradores, amistosos, e construtores de uma ampla rede de engenheiros e cientistas que se tornem bons parceiros de pesquisa e desenvolvimento e de colaborações técnicas.



Confira as entrevistas anteriores

  • Bio: É Pesquisador 1A do CNPq e Professor Titular da FEEC-UNICAMP. Graduou-se em Engenharia Elétrica e obteve o título de Mestre em Engenharia Elétrica pela FEEC em 1974 e 1983, respectivamente. Obteve os títulos de Ph.D. pela University of Essex em 1988, Livre-Docência, Professor Adjunto e Professor Titular pela FEEC-UNICAMP em 1992, 1997 e 1999, respectivamente. Exerceu os cargos de Chefe de Departamento, e de Coordenador de Pós-Graduação da FEEC por vários anos. Foi membro do Comitê de Assessoramento da área de Engenharia Elétrica e Biomédica - CA-EE - do CNPq. Orientou mais de cinqüenta mestrados, doutorados e pós-doutorados. É autor de patentes e publicou mais de duas centenas de artigos em revistas e congressos. É orientador da tese de doutorado ganhadora do Prêmio CAPES de tese 2009 Engenharias IV. É ainda orientador da tese de doutorado ganhadora do Prêmio Menção Honrosa no Prêmio CAPES de tese 2007 Engenharias IV. É detentor de outros prêmios incluindo o Prêmio de Reconhecimento Acadêmico Zeferino Vaz ano 2000, Prêmio de Reconhecimento Acadêmico Zeferino Vaz ano 2010, Top Associate Editor do IEEE Transactions on Vehicular Technology (TVT-IEEE) 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017. Antes de seu ingresso na UNICAMP, trabalhou no CPqD na concepção, desenvolvimento, construção, integração e transferência de tecnologia da primeira central telefônica digital do Brasil, a família Trópico de Centrais, hoje totalmente integrada no mercado mundial. Trabalhou ainda na IBM e Elebra-Pladen. Foi consultor da Telesp Celular (hoje VIVO) para a definição do sistema celular digital implantado no estado de São Paulo. Participou da editoria de diversas revistas internacionais e hoje é Associate Editor da TVT-IEEE. É autor de livros internacionais na área de comunicações sem fio, adotados como texto ou referência nos cursos de comunicações em diversas universidades em todo o mundo.



    1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Ingressei na FEEC-UNICAMP como aluno de graduação em 1974 e me formei em 1978. Trabalhei no CPqD-Telebrás, IBM, e Elebra, de 1978 a 1985, ao mesmo tempo em que cumpria os créditos e desenvolvia a dissertação para o meu Mestrado, defendido em 1983. Desliguei-me das empresas em que trabalhava para fazer o meu Doutorado na University of Essex, Inglaterra, em 1985, tendo obtido o título de Ph.D. em 1988. Estabeleci-me na FEEC-UNICAMP em 1988 através de uma Bolsa de Recém-Doutor do CNPq e, através de Processo Seletivo, ingressei na FEEC em 1989 como Professor Assistente Doutor na Parte Especial do Quadro Docente da Unicamp. Passei à Parte Permanente do Quadro Docente em 1990, através de Concurso Público. Ainda através de Concursos Públicos, obtive os títulos de Professor Livre Docente em 1993 e de Professor Adjunto em 1997. Ascendi ao cargo de Professor Titular em 1999 através de Concurso Público.

    Desde criança, minha intenção era fazer Medicina, não sei por que motivo, talvez pelo fato de ser de família Libanesa, em que a profissão de médico é muito valorizada. De fato, eu tinha bastante curiosidade sobre conhecer o corpo humano e sua dinâmica. Também, desde criança, eu me divertia com construções e montagens de brinquedos rudimentares a partir de sucata e, mais tarde, com algum experimento simples de eletricidade extraído de algum livro de ciências. Num desses experimentos, eu e um colega idealizamos e construímos dois aparelhos de telefone que se comunicavam entre si e que também podiam ser integrados perfeitamente à rede telefônica. Ainda, à época do auge da exploração espacial, criamos um grupo de estudos para projetar um foguete. Esse grupo tinha estatuto, bandeira, reuniões semanais de estudos, etc. Projetamos, mas não construímos o foguete, contudo chegamos a construir um pequeno carro-foguete. O carro até que funcionou, precariamente, e felizmente não explodiu. Enfim, esse tipo de atividade me entusiasmava.

    No final do ensino médio, à época chamado científico, precisava decidir entre Medicina e Engenharia, as duas disciplinas que me encantavam. A minha decisão por Engenharia foi quase que um jogo de moedas. Passei a pender mais por Engenharia porque sentia muito sono ao estudar ecologia, o que não acontecia com matemática e física. Nunca saberei o que teria acontecido se tivesse optado por Medicina. Para ser franco, continuo muito curioso sobre essa disciplina. (Tenho seis filhos, cinco médicos e uma cursando Medicina.)

    Percebo que as coisas não acontecem como planejamos, pelo menos para mim. Quando me formei em Engenharia Elétrica, minha intenção era trabalhar com rádio e circuitos analógicos. O emprego no CPqD (veja a resposta à questão seguinte) me levou a trabalhar com circuitos digitais num dos projetos mais ambiciosos de Telecomunicações do Brasil – as Centrais Trópico de Comutação Digital. Foi a sorte! Da mesma forma, quando planejei fazer o meu Doutorado na Inglaterra, minha intenção era trabalhar com centrais telefônicas digitais, o meu tema de trabalho no CPqD. Chegando à University of Essex, o meu suposto orientador deixou a Universidade para trabalhar na HP e eu fiquei sem orientador. Fui convidado a fazer parte de um grupo de pesquisas financiadas pela British Telecom para projetos na área de Telefonia Celular. Aceitei o convite sem ter a noção do que se tratava. O meu orientador passou a ser Prof. Kenneth W. Cattermole, umas das pessoas mais admiráveis e inteligentes que conheci. Foi a sorte! Passei a trabalhar com Comunicações Sem Fio em diversos aspectos, desde tráfego a caracterização de canais. Assim, estou em Comunicações Sem Fio desde os seus primórdios.

    2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

    Comecei como estagiário do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) da Telebrás em 1977, portanto na própria fundação do CPqD, sendo, portanto, um dos seus pioneiros. Fui contratado como engenheiro em 1978, ano de minha formatura na FEEC. No CPqD participei de um dos maiores projetos de engenharia de telecomunicações do Brasil: a Família Trópico de Centrais por Programa Armazenado Temporal - CPA-T. A CPA-T foi o carro-chave do CPqD-Telebrás do final da década de 1970 a meados da década de 1980, envolvendo, inicialmente, dezenas, e, depois, centenas de engenheiros e profissionais de diversas especialidades. Uma CPA-T é uma central telefônica totalmente digital fazendo uso de tecnologia de ponta à época. Participei ativamente na concepção, desenvolvimento, construção, integração, teste, e transferência para a indústria da primeira central telefônica digital do hemisfério sul, a Trópico R, tarefas que envolveram ambos hardware e software. O país passava por um momento ímpar de incentivo à produção de tecnologia nacional, e tive o privilégio de viver este momento. O período no CPqD proporcionou um crescimento profissional notável, com projetos de tecnologia de ponta equiparada àquela produzida por gigantes do setor como Ericsson, Lucent, Nortel e outras. Da concepção à transferência de tecnologia para a indústria, esse período de crescimento profissional parecia ter-se esgotado, e, depois de algum tempo, senti a necessidade de um maior aprimoramento. Já com o Mestrado terminado ainda no CPqD, parti para o Ph.D. na Inglaterra. Por um lance de sorte, fui convidado a participar de um novo projeto, algo incipiente em todo o mundo: a telefonia celular. O projeto era financiado pela British Telecom. Aqui também vivencio a interação Academia-Empresa. Assim, também nesse setor, i.e., telefonia celular, tive o privilégio de estar presente desde o início dessa incrível revolução tecnológica. Estou, portanto, em Comunicações Sem Fio desde os seus primórdios. De volta ao Brasil, tem início a minha vida acadêmica, agora como Recém-Doutor com bolsa do CNPq no Departamento de Comunicações da FEEC. Da bolsa à efetivação por concurso até galgar ao posto de Professor Titular foram longos, árduos, e profícuos anos.

    Felizmente, desde o início, como docente da Unicamp, tenho participado de projetos de pesquisa, de implementações práticas e de atividades de consultoria com inúmeras empresas de telecomunicações, no Brasil e no exterior. Assim, mesmo em aulas e pesquisas teóricas, tento incluir na teoria as mais variadas situações práticas vividas ao longo de minha carreira.

    Estando em Comunicações Sem Fio, à época chamada de telefonia celular, percebi que não havia literatura especializada para uma disciplina na área. Os poucos livros disponíveis dificilmente poderiam ser adotados como texto em um curso. Eram árduos e muito específicos. Engajei-me, dessa forma, já no início da minha carreira na FEEC, em um projeto ousado de escrita de um livro internacional que pudesse ser usado como texto na área de Comunicações Sem Fio e que abordasse os mais variados, amplos, e importantes tópicos. Nasceu o meu primeiro livro: Foundations of Mobile Radio Engineering, CRC Press, 1993. Esse livro, como o nome indica, trata dos fundamentos das Comunicações Sem Fio. Foi escrito em uma época em que podiam-se contar nos dedos os livros na área (eram dois ou três). De fato, esse foi um livro pioneiro, o primeiro propondo uma estrutura didática de um curso amplo em Comunicações Sem Fio, após o qual vários outros seguiram com a mesma abordagem. Até então, os poucos livros da área tratavam Comunicações Sem Fio como um tópico de pesquisa. Após este, outros vieram em minha carreira. Esse livro, porém, constituiu um marco em minha vida acadêmica, abrindo-me oportunidades diversas.

    3. Quais suas referências profissionais?

    Minha primeira referência, não poderia deixar de ser, foi o meu pai, libanês de uma aldeia do norte do Líbano de nome Jdideh. Meu pai não poderia ser chamado de analfabeto porque aprendeu a ler, escrever, e a aritmética, mas por conta própria. Nunca frequentou um banco de escola. Ele perdeu o pai antes do próprio nascimento e, desde muito cedo, como arrimo de família, teve de trabalhar para ajudar a mãe e os irmãos. Casado com minha mãe, e com duas filhas praticamente recém-nascidas, minhas irmãs mais velhas, migrou aos 35 anos, em busca de oportunidades, sem saber uma palavra de Português. No Brasil, trabalhou como mascate e depois estabeleceu um comércio de secos e molhados e prosperou, criando seis filhos, sobreviventes dos dez tiveram. Dele, tenho o exemplo de humildade, mansidão, resiliência, perseverança, e dedicação, valores caros em qualquer atividade profissional e, de fato, na vida. Dedicou a vida ao trabalho e à família, exaurindo as suas forças para a educação dos filhos. A ele devo o incentivo ao meu Doutorado na Inglaterra. Quando todos tentavam nos demover do nosso intento, a mim e à minha futura esposa, também engenheira – o intento de largar os nossos empregos estáveis e excelentes salários para vivermos de uma bolsa de estudos, sem garantia de emprego na volta - meu pai, do alto de sua iliteracia e num Português arrastado e cheio de sotaques, disse: “Meus filhos, larguem tudo e vão.”

    Minha outra referência foi o meu orientador Prof. Kenneth W. Cattermole. Prof. Cattermole foi uma das mais admiráveis e inteligentes pessoas que conheci. Um dos pioneiros no desenvolvimento da técnica Modulação por Código de Pulso – PCM –, é autor do livro Pulse Code Modulation, referência fundamental na área. Serviu no Corpo de Engenheiros da Segunda Grande Guerra antes de trabalhar na indústria no desenvolvimento de equipamentos. Partiu da indústria para a Academia – University of Essex –, onde foi responsável pela fundação da cadeira de telecomunicações. Combinava um profundo conhecimento de matemática e soluções de problemas práticos com incomparável destreza. Apesar de toda essa admirável bagagem, era humilde ao extremo. A ele devo a proposta e a semente de meu tema de trabalho de Doutorado e a inspiração para escrever livros.


    4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

    As sociedades científicas reúnem os pesquisadores ativos em áreas de conhecimento de ponta. Nesse sentido, no Brasil, a SBrT é a nossa referência em telecomunicações. E a SBrT tomou uma dimensão respeitável, reunindo pesquisadores renomados, ativos não só aqui mas em todo o mundo. Um dia, o saudoso Professor Giarola, a quem eu devo a leitura do meu livro Foundations, e uma das maiores referências em antenas, logo no início de minha carreira disse: “Se quiser prosperar, participe das sociedades científicas e de seus congressos.”


    5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

    Minha primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações foi o SBrT 1989 (à época SBT) de 3 a 6 de Setembro de 1989, Florianópolis, SC. E nesse mesmo SBrT, um episódio digno de nota. Era recém-doutor, recém chegado da Inglaterra, e me convidaram a presidir uma sessão técnica onde também apresentaria meu trabalho. Nunca havia presidido uma sessão técnica em congresso. Queria dar o melhor de mim e fazer também uma boa apresentação. Sala lotada e eu muito nervoso. A sessão transcorreu muito bem, da mesma forma a minha apresentação. Mas, devido ao meu nervosismo, suei como uma bica. Terminada a sessão, fui espairecer-me fora do hotel, que fica perto da Ponte Hercílio Luz. Resolvi fazer uma caminhada sobre a ponte, apreciando o local. Ventava muito, vento frio, e eu, muito suado. Como consequência peguei uma gripe bravíssima, com febre e dor de garganta. Tudo bem, não fosse o concurso Público que eu deveria enfrentar, em seguida, para ingresso na FEEC. Fiz o concurso muito doente. Felizmente, deu tudo certo.

    Outro evento interessante foi quando Prof. Paul Jean (Poli-USP) e eu organizamos o International Telecommunications Symposium, o SBrT Internacional 1998, 9 a 13 de Agosto de 1998, São Paulo SP. O local foi o Maksoud Plaza. Só que no dia anterior, o Hotel foi palco de um evento exótico, o leilão de avestruzes, as avestruzes presentes no local. O cheiro que essas aves deixaram foi insuportável mesmo. Como seria o ITS no dia seguinte? Pobre dos funcionários que passaram a noite tentando limpar o local e amenizar o cheiro do ambiente. Para nós, que sabíamos do ocorrido, o cheiro nunca se dissipou em todo o evento. Nenhum participante, porém, reclamou (do cheiro, pelo menos).


    6. Tendo trabalhado com sistemas de comunicações sem fio, inclusive com um livro sobre o tema, como o senhor enxerga a chegada do 5G no Brasil?

    Vejo a chegada do 5G como a chegada de mais uma tecnologia como aquelas que vi anteriormente. Estou nisso desde os primórdios do advento das comunicações sem fio. Percebo que antes que se consolide a implementação de uma tecnologia já se promete mundos e fundos de uma próxima. Foi assim com 1G, 2G, 3G, 4G, e assim o será com 5G, 6G, etc. O que acontece, de fato, é que nunca a tecnologia chega com o que se promete. Chega com features muito aquém daquelas que se esperam. E aquilo que se espera para a tal tecnologia prometida acaba se consolidando na próxima promessa, no caso 6G. Mas, sem dúvida, será um avanço. Por outro lado, infelizmente, a ideia de uma nova tecnologia provoca um alvoroço na comunidade e, para publicar, parece-me que se torna mandatório incluírem-se aplicações com a tal tecnologia, mesmo que apenas superficialmente. Eu até brinco em minhas aulas que 5G já está incrivelmente ultrapassado; 6G é um tema batido; agora temos de escrever um White Paper para 8G, porque, para 7G, já deve ter um em submissão.


    7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    Acho que como todos: aulas remotas e, infelizmente, menor interação com colegas e alunos. Isso é ruim. Perde-se o ritmo que as atividades presenciais naturalmente nos impõem. Mas também é bom, pois descobre-se um outro mundo do nosso lado e que a gente nem percebia. Tem sido um período de largo aprendizado em que pondero melhor sobre o que é realmente importante.


    8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

    Por uma boa parte da minha adolescência e juventude, e um pouco da fase adulta, fui locutor de rádio. Apresentava programas de música, noticiário, gravava comerciais, chamadas de programas, etc. Foi um período incrivelmente divertido, do qual lembro-me com muita saudade. Fora isso, gosto muito de ouvir música, nenhum estilo ou época em especial. Aprecio músicas antigas, modernas, clássicas, e Rock in Rio (mas fujo de aglomeração). Gosto ainda de ler sobre filosofia e religião. Perto desse incrível mistério que é a vida, as coisas técnicas com as quais lidamos são quase nada, parecem brincadeira. Esse mistério me fascina.



    9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

    Quando estava na faculdade, não via a hora de me formar e “botar a mão na massa.” Estava cansado de tanta teoria. Formando-me, fui logo contratado e, de fato, “botei a mão na massa.” E que “massa!” O projeto Trópico, como já narrado anteriormente. Ao mesmo tempo, enquanto trabalhava, fui fazendo cursos de pós até concluir todos para um Mestrado. E aí veio o Mestrado. De novo, senti a necessidade de continuar estudando, e, mais tarde, parti para o Doutorado. Meu conselho é o seguinte: não abandonem os bancos da Academia. Faz muito bem, tanto para quem se senta no banco – o aluno – quanto para quem está no palco – o professor. O aluno deverá ver coisas novas e o professor será desafiado com problemas práticos vividos por eles. O Mestrado ou o Doutorado podem vir como consequência natural disso, mas não necessariamente. O importante é essa saudável interação indústria/Academia. Com esse mesmo raciocínio, para quem está na indústria, seria ótimo fomentar projetos de pesquisa na Academia. E para quem está na Academia, procurar a indústria com intuito de oferecer seus préstimos através de consultoria e/ou projetos. É uma interação extremamente saudável. Estive na indústria e estou na Academia. E desde que me fixei na Academia, sempre mantive contatos com a indústria através de projetos de pesquisa e consultorias. Tenho um imenso respeito por esses profissionais. Há uma competência incrível na indústria que, muitas vezes, não é conhecida na Academia. Vale muito a pena a interação.


    10. Quais áreas científicas ou tecnológicas o senhor apontaria como norteadoras do futuro próximo?

    No livro que o Prof. Waldman e eu escrevemos – Telecomunicações: Princípios e Tendências – temos um capítulo final intitulado “Bola de Cristal”. Lá, a gente brinca com a questão de previsões. Sim, pode-se chamar de brincadeira. Gosto muito de ler sobre previsões porque nada do que se prevê acontece. São o que popularmente se chama de “chute”. O que a gente consegue fazer é conjecturar sobre tendências de curto prazo que, de fato, se configuram como sequência lógica dos fatos. Nesse sentido, parece-me óbvio que o ingresso do tema Inteligência Artificial em comunicações, e em todas as áreas, é mesmo uma tendência. Da mesma forma, comunicações em frequências muito altas (THz) também o é. E em cima disso, a revisão dos tópicos conhecidos. Há ainda a tal de Quantum Communication. Nem sei direito como funciona, mas, pelo nada que vi, é uma ideia interessante em que tudo é extremamente desafiador.


    11. Algo mais que gostaria de comentar?

    Eu gostaria de dizer que, durante toda a minha carreira, seja fora ou dentro da Academia, eu tenho tido o privilégio de trabalhar com pessoas extremamente capazes. Destaco aqui os colegas do CPqD, onde passei vário anos, e de todas as empresas com as quais colaborei seja na forma de projetos de pesquisa quanto de consultoria. Que admiração eu tenho por esses profissionais! Como são capazes e quanto tenho aprendido com eles. A eles, a minha eterna gratidão. Gostaria de mencionar os professores de todas as instituições com quem tenho interagido e, particularmente, os colegas da FEEC. Que ambiente rico em conhecimento e em desinteressada colaboração! Muito obrigado, colegas! O que dizer, então, dos orientandos de Trabalho de Final de Curso, de Iniciação Científica, de Mestrado, de Doutorado, e de Pós-Doutorado? Somados, são mais de 100. Por um período eu os ensinava, mas pela maior parte do tempo, aprendo com eles. São incrivelmente capazes! A vocês, meus queridos, devo minha carreira! Meu muito obrigado!

    Os meus agradecimentos sinceros à SBrT e seus representantes.



  • Bio: É Professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica e Eletrônica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde trabalha desde fevereiro de 2000. Possui graduação pela UFPE (1989), mestrado pela UNICAMP (1992) e doutorado pela University of Notre Dame, U.S.A. (1996), todos em Engenharia Elétrica. De 1997 a 1999, realizou Pós-Doutorado na UNICAMP. De março de 2009 a fevereiro de 2010, realizou pós-doutorado na School of Electrical & Information Engineering, University of Sydney, Austrália. De abril a junho de 2017, realizou pós-doutorado (estágio sênior) na França, atuando conjuntamente no Laboratoire des Signaux et Systèmes (L2S), Centrale-Supélec, e no Laboratoire de Traitement du Signal et Architectures Électroniques (LAETITIA), Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM). É Senior Member do IEEE e Sócio Sênior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT). É membro da Eta Kappa Nu Honor Society (U.S.A.), Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT), IEEE Information Theory Society, IEEE Communications Society e ARC Communications Research Network (ACoRN, Austrália). Desde 2001 é bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, e coordenou 4 projetos de pesquisa do Edital Universal do CNPq e um projeto de Pesquisador Visitante Especial (PVE) do CNPq (2014-2019), em colaboração com instituição francesa. De 2003 a 2004, serviu como Editor-Chefe da Revista da Sociedade Brasileira de Telecomunicações. De 2011 a 2014 foi Editor Associado do "International Journal of Information and Coding Theory (IJICoT), Inderscinece Publisher", e Editor Associado de Teoria de Informação e Codificação do Journal of Communication and Information Systems (JCIS). De 2016 a 2018, atuou como Editor Associado dos periódicos "Physical Communication (Elsevier)" e "Digital Signal Processing (Elsevier)". Em 2020/2021, atua como Editor do tópico "Index Modulation for 6G Communications", do periódico "Frontiers in Communications and Networks". Foi Coordenador Técnico do XXVII Simpósio Brasileiro de Telecomunicações (SBrT2009) e "Co-Chair of the Track Information Theory and Coding of the 2014 SBrT/IEEE International Telecommunications Symposium (ITS2014)". Foi "Track Chair of Fundamentals and PHY" do The 2019 Annual IEEE International Symposium on Personal, Indoor and Mobile Radio Communications (IEEE PIMRC 2019) e Coordenador Geral do XXXVIII Simpósio Brasileiro de Telecomunicações e Processamento de Sinais (SBrT2020). Foi Membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (mandatos 2010/2014 e 2016/2018). Foi Coordenador de Pesquisa do Centro Tecnológico/UFSC em 2018 e foi Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica (PPGEEL) (mandato 2018-2020). Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em Sistemas de Telecomunicações, atuando principalmente em aplicações da teoria de codificação e de informação.



    1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Que eu faria Engenharia ou algum curso das Exatas eu já tinha em mente desde criança, por gostar de Matemática mais do que das outras matérias da escola. Mas a minha escolha pela Engenharia Elétrica ocorreu somente depois de ter visitado a usina hidroelétrica de Paulo Afonso com minha família. Eu tinha uns 11 anos de idade e fiquei fascinado com tudo aquilo. A partir dali minha decisão pelo curso que faria já estava tomada. Um ano antes de iniciar Engenharia Elétrica na UFPE, fiz um curso técnico de Informática e Processamento de Dados na Universidade Católica de Pernambuco e logo em seguida comecei a trabalhar como programador. Comecei a tomar gosto pelos computadores e isso me guiou para a modalidade de Eletrônica na UFPE. Naquela época só havia vestibular para Engenharia Elétrica. No quinto período optava-se por Eletrônica ou Potência. Mais adiante fiz a disciplina de Princípios de Comunicação, com o Prof. Valdemar Cardoso da Rocha Jr. Com todo o seu conhecimento, didática e carisma, o Prof. Valdemar já me fizera esquecer um pouco de Paulo Afonso. Meu estágio, eu fiz na Embratel, para o que eu pedi demissão do meu emprego. Na sequência, cursei Teoria da Informação e Codificação com a Profa. Marcia Mahon Campello de Souza e Processamento Digital de Sinais com o seu marido, Prof. Ricardo Menezes Campello de Souza. Que professores! Que universo fascinante! Todo aquele formalismo matemático. Quanta simetria! Quanta beleza! E esses três professores faziam pesquisa nessas áreas. Eu tinha que seguir aquele caminho também.

    2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

    Depois de me formar na UFPE, eu me inscrevi para mestrado na UNICAMP. Antes mesmo de o resultado da seleção sair, viajei para Campinas para conhecer a universidade e demonstrar todo o meu interesse. Lá, fiquei sabendo que já tinha sido aceito e que trabalharia com o Prof. Reginaldo Palazzo Jr. Alguns colegas meus que já estavam por lá me disseram que eu tinha tido muita sorte. O Palazzo era um dos orientadores mais disputados entre os bons alunos, pelo altíssimo nível da sua pesquisa e pela forma atenciosa, gentil, respeitosa e amigável com que tratava seus alunos. Foi exatamente nessas condições e sob esses cuidados que fiz o meu mestrado. O Palazzo me fez gostar cada vez mais da pesquisa científica e me encheu de autoconfiança, a ponto de eu querer tentar doutorado fora do país. Fui fazer doutorado na Universidade de Notre Dame, com outro “papa” da área de Códigos Corretores de Erros. Lá ainda convivi durante um ano com o Palazzo, por conta do seu sabático na mesma universidade. Depois do meu doutorado, fiz pós-doutorado por dois anos e meio na UNICAMP, mais uma vez sob a supervisão do Prof. Palazzo. Em 2000, eu me tornei professor na UFSC, onde trabalho até hoje.

    3. Quais suas referências profissionais?

    Os Profs. Valdemar, Marcia e Ricardo, da UFPE, que plantaram em mim a semente do saber, me apresentando o fascinante universo da Teoria das Comunicações, e o Prof. Palazzo, que definitivamente me moldou e me ensinou como fazer pesquisa de forma ética e, principalmente, como tratar os alunos. Hoje quando me sento à mesa para conversar com meus orientandos, eu me lembro de como o Palazzo conversava comigo.


    4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

    A participação do pesquisador em sociedades científicas é importante por diversos motivos. Essas sociedades promovem eventos científicos, palestras (distinguished lectures), atividades diversas que motivam o engajamento de alunos, o que é essencial. Ao renovar a sua anuidade, o pesquisador contribui para a manutenção dessas atividades de difusão do conhecimento. Além disso, há um retorno financeiro visto que o membro recebe descontos nos eventos da sociedade e em outros produtos, que muitas vezes superam o valor da anuidade. Também muito importante é poder fazer parte de um grupo de pessoas com interesses semelhantes aos seus, com quem você possa fazer contato e formar parcerias. É fundamental contribuir para que as sociedades científicas se desenvolvam. Da SBrT eu sou membro há mais ou menos 25 anos. Nesse período, pelo que posso me lembrar, eu só não participei do Simpósio quando não pude: no nascimento da minha filha em 2002 e quando estava afastado do país em 2009. Para mim, participar dos Simpósios da SBrT é quase como ir a uma confraternização com amigos, com o bônus de assistir a várias apresentações de trabalhos interessantes.


    5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

    Durante o meu mestrado na UNICAMP, eu participei do SBrT’91, que ocorreu ali do lado na Escola Politécnica da USP. Confesso, porém, que tenho muito pouca lembrança dessa minha participação. Eu considero que minha primeira participação foi mesmo no SBrT’97, em Recife. Eu tinha terminado o doutorado no ano anterior e assim pude apresentar trabalho. Eu acho que o fato de o evento ter se realizado na minha cidade natal e ter sido organizado por aqueles que 10 anos antes me fizeram gostar da área tornou este evento especial para mim. Além disso, eu me lembro que o evento foi realmente muito bem-organizado.

    6. Como foi a experiência de realizar um Simpósio Brasileiro de Telecomunicações?

    Foi muito enriquecedora. Eu aprendi muita coisa com a organização do SBrT’20. Sabemos que foi um período difícil para todos por causa da pandemia da COVID-19. No nosso caso, em particular, estávamos com tudo pronto para o evento presencial quando ela nos pegou de surpresa e tivemos que nos adaptar ao formato virtual. Além disso, eu estava como coordenador da pós-graduação na UFSC e fiquei sobrecarregado. Mas o que vale é que eu não estava só. Graças à contribuição de vários colegas, em especial o Prof. Eduardo Luiz Ortiz Batista (coordenador-geral), Prof. Márcio Holsbach Costa e Prof. Richard Demo Souza (coordenadores na fase inicial da organização) e todos os membros da comissão organizadora, além do apoio da Sociedade representada pelo Prof. Cristiano Magalhães Panazio, o evento foi muito bem-sucedido considerando as restrições.


    7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    Neste momento eu estou trabalhando bem, tanto na pesquisa quanto nas minhas aulas. A gente acaba se adaptando. E como a pesquisa que faço é teórica, não precisei ir à UFSC para usar um equipamento específico ou realizar um experimento. Contudo, nos primeiros meses da pandemia eu senti muito o impacto do distanciamento social e do medo da doença. Cheguei a ter uma perda considerável de peso nesse período. Eu costumava usar pouco o slide e muito mais o quadro nas minhas aulas. Ter que preparar o material, gravar videoaulas e dar aulas síncronas foi um grande desafio, como foi para a maioria das pessoas.


    8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

    Os hobbies que tenho são bastante comuns como ler, escutar músicas, assistir a filmes, tocar um pouco de violão e andar de bicicleta aos domingos (este bem atenuado durante a pandemia). Gostava muito de jogar futebol e tênis, mas tive que parar por causa de problemas no quadril. Também gosto muito de viajar com a família. A última viagem que fizemos foi justamente dois meses antes da pandemia, quando passamos duas semanas na Europa e outras duas no Japão. Apesar do desgaste físico e do alto custo, a viagem foi renovadora. Mas eu vibro muito com viagens curtas também. Aqui gosto muito de viajar para as Serras Catarinenses. Gosto muito de Urubici. Eu penso que quando me aposentar vou morar num sítio em alguma serra. Mas quero ter a cidade por perto, “just in case”. Durante a pandemia eu me interessei por fazer pão de fermentação natural. Adquiri o know-how pela internet mesmo. Preparei um roteiro com todo o procedimento e uma lista dos utensílios necessários. Há um ano não compramos pão aqui em casa. E agora estou ampliando os conhecimentos para a elaboração de pizzas. Embora eu já esteja equipado com pedra refratária e pá, a minha técnica ainda não está plenamente desenvolvida.


    9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

    Ainda bem que sua pergunta foi mais específica. Tendo eu decidido aos 11 anos de idade o curso que queria fazer, me dói ver adolescentes sem ideia de que profissão seguir. Neste caso, eu os aconselho a ler sobre as profissões e conversar com diferentes profissionais, ir de porta em porta mesmo. Ou até buscar alguma ajuda com psicólogo para uma orientação profissional. É fundamental ter convicção da profissão que quer seguir, mesmo que venha a mudar de ideia alguns anos depois. Feita a escolha e estando certo dela, tudo fica mais fácil, mas nem tanto ... O aconselhamento que dou é dedicação plena para alcançar os seus objetivos profissionais. Tem que estudar muito, além de focar e fazer coisas que sejam ao mesmo tempo prazerosas e levem a esses objetivos. Haverá ventos contrários. Mas é importante manter o foco e não desistir. Eu posso falar um pouco do meu foco para a realização do doutorado nos Estados Unidos. No segundo ano do mestrado fui morar na Moradia da UNICAMP, que é gratuita. Fugi da zona de conforto, pois passei a dividir um único quarto de dois beliches com três alunos bem estranhos. Eu procurei encarar aquilo como uma experiência interessante que me faria amadurecer. Mas o fiz mesmo para poder canalizar os meus recursos financeiros para pagar cursos de inglês, preparatórios para TOEFL e GRE e inscrições nas universidades. Não media esforços. Eu me dedicava ao mestrado de dia e a esses estudos à noite. Deu certo e eu consegui iniciar o doutorado. Exatamente na metade da caminhada, eu me divorciei da minha primeira esposa. Foi um período difícil, no qual tive muitos motivos para desistir. Mas mantive o foco nos meus objetivos. Ela voltou para o Brasil e eu continuei, sempre com a faca nos dentes. Não desista. Persevere.


    10. Quais áreas científicas ou tecnológicas o senhor apontaria como norteadoras do futuro próximo?

    Para os próximos 10 anos eu não poderia deixar de citar os sistemas 6G e tudo o que ele envolve: sensores por toda parte, de todos os tamanhos e com funções diversas, comunicação entre eles e com centros de dados, inteligência artificial e tomada de decisão, tudo com pouca ou nenhuma intervenção humana. Para quem quer trabalhar com nanotecnologia haverá muito o que desenvolver, sobretudo com miniaturização de sensores. O controle autônomo e a inteligência artificial estarão sem dúvida em alta. Muitos desafios também na nossa área de telecomunicações, com a busca de novos paradigmas para satisfazer os diversos requisitos impostos por esses sistemas. Enfim, quem quiser trabalhar com uma dessas áreas encontrará certamente um caminho promissor no futuro próximo.



    Bio: Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1983), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp (1987) e doutorado em Engenharia Elétrica pela Darmstadt University of Technology, Alemanha (1992). Foi Professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação da Unicamp de 1994 a 2012 onde obteve a livre-docência em 1998. Desde 2012 é Professor Titular da Faculdade de Tecnologia da Unicamp. É co-autor de mais de oitenta artigos publicados em revistas e anais de congressos. Atuou como orientador em mais de vinte e cinco teses de mestrado e doutorado. Foi coordenador técnico de simpósios nacionais e internacionais na área de telecomunicações. É membro sênior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Seus interesses de pesquisa estão nas áreas de Transmissão Digital, Teoria da Informação e Codificação Aplicadas, com ênfase em algoritmos para receptores iterativos, modulação codificada e códigos corretores de erros.



    1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Desde a minha infância eu havia demonstrado curiosidade sobre o funcionamento de um rádio. Quando fiz 13 anos, ganhei de presente de aniversário do meu tio, que era engenheiro mecânico, o brinquedo chamado “Philips Engenheiro Eletrônico”. Logo depois, meu avô me deu de presente um curso por correspondência do Instituto Universal Brasileiro sobre eletrônica e rádio. Lembro de ficar ansioso aguardando a vinda pelo correio das apostilas e do material para montagem de um rádio. Não parou aí: fui estudar para ser técnico em telecomunicações na Escola Técnica Federal de Pernambuco em Recife. E depois entrei na Universidade Federal de Pernambuco para cursar engenharia elétrica. Minha curiosidade havia aumentado: queria entender como funcionava uma TV, principalmente seu tubo de raios catódicos. Na Universidade, ao me deparar com a disciplina “Princípios de Comunicações”, que era ministrada pelo Prof. Valdemar Cardoso, descobri que existia uma forte teoria matemática que modelava os sistemas de comunicações e comecei a me interessar por ela. Até hoje ainda não me aprofundei no estudo do tubo de raios catódicos. Minha curiosidade havia mudado da eletrônica das comunicações para a teoria dos sinais.

    2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

    Após o término do curso de graduação, iniciei meus estudos de mestrado no Departamento de Comunicações da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp sob a orientação do Prof. Walter Borelli. Ele sugeriu modulação codificada como tópico da pesquisa de mestrado. Modulação codificada se tornou um importante tópico de pesquisa após a publicação do artigo de Gottfried Ungerboeck no simpósio de teoria da informação do IEEE em 1976. Continuei fazendo pesquisa neste tópico quando fui para a Alemanha realizar meus estudos de doutorado na Universidade Técnica de Darmstadt sob a orientação do Prof. Bernhard Dorsch. Acredito que estes fatos contribuiram para que, ao voltar da Alemanha e me tornar docente na FEEC, eu escolhesse desenvolver pesquisa em teoria da informação aplicada. Em 2012, com a criação do curso de Engenharia de Telecomunicações na Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp no Campus de Limeira, passei a integrar o corpo docente da Coordenadoria de Telecomunicações da FT.

    3. Quais suas referências profissionais?

    Minha carreira profissional foi uma carreira acadêmica. Tive a oportunidade de conhecer e conversar com muitos professores que são referências no Brasil e no Exterior. Vou citar apenas alguns com quem tive oportunidade de trocar ideias em diferentes ocasiões. No Brasil, os professores Fábio Violaro, Amauri Lopes, Reginaldo Palazzo e Valdemar Cardoso. No exterior, os professores James Massey, Lajos Hanzo e João Barros. Com eles aprendi a dar igual importância às atividades de ensino, de pesquisa e de extensão na carreira universitária. E quando possível, procurar integrá-las. Incluo nas atividades de extensão a participação em sociedade técnicas e/ou científicas.


    4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

    Eu vejo esta participação como uma oportunidade única de nos colocar em contato com estudantes, docentes, pesquisadores e os mais diversos profissionais das indústrias e das empresas. A participação nestas sociedades é sem dúvida um fator que impulsiona o desenvolvimento profissional de seus membros. Muitas destas sociedades se tornaram uma referência para profissionais de diferentes áreas e a SBrT é uma delas. Além destes aspectos, elas podem contribuir de forma ativa no enfrentamento dos problemas de qualquer país. No ano passado, a participação da SBrT na “Frente pela Vida” e no apoio financeiro às comunidades carentes são exemplos disto.


    5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

    Participei pela primeira vez num simpósio da SBrT em 1986 no Rio de Janeiro. Era o IV Simpósio Brasileiro de Telecomunicações. Apresentei resultados da minha pesquisa de mestrado. Desde então, só deixei de participar de alguma edição do simpósio por me encontrar fora do Brasil. O simpósio de 2017 (realizado em São Pedro) teve a presença do Prof. Mohsen Kavehrad que ministrou uma plenária sobre “Optical Wireless Communications”. Ele havia recentemente se aposentado após uma longa e bem sucedida carreira profissional e acadêmica. O fato que me chamou a atenção foi a maneira engajada como ele participou do simpósio inclusive assistindo as sessões de posters dos alunos de iniciação científica e conversando com eles. Um dia antes da sua plenária, ele foi verificar o sistema de projeção das transparências e sugeriu que de alguma maneira a qualidade da imagem projetada poderia ser melhorada. Após várias tentativas via software, ele solicitou uma escada e orientou o pessoal de suporte a ajustar o foco do projetor. Isto contribuiu para a qualidade das imagens das apresentações durante o evento.

    6. Como foi a experiência de realizar um Simpósio Brasileiro de Telecomunicações?

    Eu tive a oportunidade de participar da organização do simpósio em duas ocasiões: em 2005 e em 2017. Em 2005, fui um dos coordenadores técnicos, atuando em conjunto com os Profs. Paulo Cardieri e Nelson Saldanha. A coordenação geral foi do Prof. Palazzo que aceitou realizar o simpósio em Campinas com um prazo menor para preparação. Apesar do prazo, a dedicação dos membros do comitê organizador na preparação proporcionou a realização de um simpósio com um número significativo de participantes. Foi introduzido nessa edição o sistema JEMS de submissão de artigos. E também, pela primeira vez, o simpósio passou a contar com sessões de trabalhos de iniciação científica. Em 2017, fui um dos coordenadores gerais, atuando em conjunto com o Prof. Celso de Almeida. O simpósio foi realizado em São Pedro, uma estância turística próxima do campus da Unicamp em Limeira. O comitê organizador contou com a participação de docentes da Faculdade de Tecnologia e da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp em Limeira. Foi incluído nessa edição o espanhol como uma língua oficial do simpósio, o que atraiu participantes de países vizinhos.


    7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    Minhas atividades profissionais não exigem minha presença num laboratório. Eu tenho utilizado ferramentas de vídeo conferencia para ministrar aulas e também para as reuniões com colegas e alunos. Também tenho utilizado uma mesa digitalizadora substituindo o quadro que uso nas aulas presenciais. Mas a minha sensação é que estas atividades sofrem uma perda de qualidade quando realizadas de maneira remota.


    8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte não técnica que usa para se informar (livro, revista, site, etc)?

    Na era digital em que vivemos, considero o hábito de ouvir notícias no rádio e na TV como um hobby. E pratico muito. Gosto de ler romances. Mas também outros gêneros. Estou lendo no momento “Arrancados da Terra” de Lira Neto. É um livro sobre fatos históricos. Mas como alerta o próprio autor: "Muito tempo atrás, lá no século XVII. Escrevi um livro que nos lança perguntas atuais - a maioria, incômodas, mas necessárias e urgentes. É uma obra sobre a luta e a resistência contra a intolerância, o preconceito, a construção dos discursos de ódio, as teorias conspirativas, a constituição de inimigos imaginários, a propensão a encarar o outro, o diferente, como uma ameaça a ser eliminada. Infelizmente, nada pode ser tão atual quanto isso."


    9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

    Mantenha-se dentro da ética profissional. Em poucas palavras: “Não faça aos outros o que não quer que façam a você.” Arrisque-se. Não tenha medo de errar. O que importa é a qualidade do erro.


    10. Quais áreas científicas ou tecnológicas o senhor apontaria como norteadoras do futuro próximo?

    Sem dúvida as “Superfícies Inteligentes Reconfiguráveis” representam uma nova área de pesquisa em comunicações sem fio para o futuro próximo. Por indicação do Prof. Weiler Finamore, iniciei recentemente a leitura do livro “Wave Theory of Information” escrito pelo Prof. Massimo Franceschetti. O livro inicia uma unificação da teoria das ondas eletromagnéticas e a teoria da informação. O desenvolvimento desta unificação deverá representar também uma nova área de pesquisa em comunicações sem fio.



    Bio: Possui graduação em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1981) e doutorado em Engenharia Elétrica - Concordia University (1984). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em telecomunicações e algoritmos inteligentes, atuando principalmente nos seguintes temas: processamento de sinais, sistemas adaptativos, filtros digitais, telecomunicações, algoritmos de aprendizado, e bancos de filtros. RID: https://publons.com/researcher/N-2694-2018/. Google Citations: https://scholar.google.com/citations?user=bfJ9_t4AAAAJ&hl=pt-BR&oi=sra. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1272-7368



    1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Meu pai era técnico de eletrônica tipo faz-tudo, tendo trabalhado em muitas emissoras de rádio e televisão, além de consertar rádios, televisores, transmissores etc. Infelizmente, perdi meu pai durante o ano do pré-vestibular e, na ocasião, eu fazia parte de uma turma IME/ITA em um cursinho perto de casa, que me ofereceu uma bolsa que dava para meus pais pagarem. Naquele momento, eu tinha duas certezas: eu não queria estudar em escola militar por várias razões, mas a principal delas era que meu pai dizia que eu viveria preso por questionar a hierarquia. A outra é que não faria engenharia eletrônica, mas o destino me pregou uma peça.
    Escolhi a UFRJ por achar que o curso e os alunos de lá me ajudariam a me livrar do provincianismo de Niterói, além de ser pública, pois não poderia pagar uma faculdade. O curso tinha alguns bons professores e, passando pelo ciclo básico, estudei o que cada engenharia fazia naquela época. Um dia cheguei em casa e disse para a minha mãe que tinha decidido fazer engenharia eletrônica. Ela não entendeu, mas me mandou consertar o ferro de passar dela, que, após minha intervenção, explodiu com um curto. Ela perguntou se eu tinha certeza da escolha. Eu pensei então no meu tio, irmão do meu pai, que dizia: “se você não fosse bom com a matemática, não serviria para mais nada”. Como eletrônica tinha muita conta, eu não desisti e acho que pelo menos eu gosto do que faço. Meu irmão e meus familiares provavelmente me comparavam com eles e com o meu pai, muitos deles habilidosos manualmente. No fundo, eu não me via fazendo o que eles faziam com maestria.
    Na UFRJ, eu estudei em uma turma no básico e em outra no profissional, ambas repletas de pessoas brilhantes que me serviam de estímulo. Foi no terceiro ano que comecei a ter aulas com o Professor Luiz Pereira Calôba e ali começou uma mudança radical na minha cabeça. Eu via nele um profissional supercompetente, que gostava do que fazia, dava aulas com amor, e tinha uma didática nata. Eu me ofereci então para fazer iniciação científica com ele, para depois descobrir que aquele Professor que sabia muita teoria era também um monstro na bancada. Com ele tomei gosto pela pesquisa, pelo ensino e, principalmente, tentei aprender como se orientam os jovens.
    No final do curso de Engenharia Eletrônica, o Professor Calôba me convidou para fazer o mestrado, e durante o mestrado, ele me disse que achava que eu tinha qualidades para me tornar um pesquisador. Pensei novamente no meu tio brincalhão e decidi que esse era o caminho. Mas, sendo honesto, eu tinha receio de decepcionar o Calôba, pois jamais atingiria seu padrão.

    2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

    Durante o mestrado, ingressei na UFRJ como professor, e o Calôba me disse que poderia terminar o doutorado muito rapidamente, mas que me aconselhava a ir para o exterior. Escolhi junto com meus amigos José C. M. Bermudez e Paulo B. Lopes a fazer o doutorado no Canadá, onde já se encontrava um ex-professor nosso, Gelson V. Mendonça.
    No Canadá, fui premiado com a orientação do Professor Andreas Antoniou, uma das pessoas mais inteligentes e talentosas com quem já convivi. Ele e o Calôba me ajudaram muito ao mesmo tempo em que, sem quererem, me deixavam com medo de decepcioná-los.

    3. Quais suas referências profissionais?

    Eu tenho muitas, ficaria horas escrevendo sobre isso. Mas o Professor Calôba é certamente uma matriz genética técnica das maiores do Brasil. Em uma estimativa que fiz uma vez, o número chega a muitas centenas. Vou citar alguns poucos, mais velhos, do exterior, e que conheci pessoalmente: A. Antoniou, A. Sedra, S. Haykin, P. Vaidyanathan, Y. C. Lim, T. Saramäki e outros. No Brasil são muitos, mas destacaria a geração anterior à minha que abriu o caminho com pessoas como L. Q. Orsini, A. Giarola, A. Monticelli, E. Watanabe etc. Eu estudei com pesquisadores hoje renomados como H. S. Malvar, J. C. M. Bermudez e trabalho em um laboratório com pessoas que admiro e nas quais me espelho, por isso referências não faltaram.


    4. O senhor tem experimentado cooperações internacionais há bastante tempo, pode nos falar sobre elas e qual a importância nos seus trabalhos e pesquisas dessas cooperações?

    As cooperações ocorrem naturalmente como resultado de encontros em eventos e reuniões e quando existe empatia entre os participantes. Eu procuro não incentivar colaborações do tipo colonizador/colonizado. As colaborações internacionais em que já participei têm sempre como pano de fundo a ajuda mútua nos dois sentidos e com amizade entre os grupos.


    5. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

    O SBrT me oxigena bastante, embora muitas vezes não pudesse comparecer por conta de compromissos paralelos. No SBrT, o que mais gosto de fazer é entrar nas seções e ver nossos jovens fazendo apresentações fantásticas para a idade deles. Salta-me aos olhos também a qualidade das orientações que recebem.
    Outra coisa que adoro é encontrar os amigos da sociedade, e que são muitos.
    O que me deixa triste é saber que aproveitamos mal e exportamos muitos desses talentos. Poderíamos ter aqui grandes empresas criadoras de tecnologia em telecomunicações, mas o lucro fácil parece ser mais atrativo para quem tem o que investir.

    6. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

    Eu não fui a muitos porque tinha colaborações na Europa que sempre coincidiam com o SBrT. Mas me recordo bem do realizado em Fortaleza, onde, como sempre, fui muito bem tratado pelos meus amigos da UFC, que, por sinal, são muito ativos na Sociedade.
    O de Curitiba me marcou porque me pediram para fazer uma palestra e tive a impressão de que ajudei um pouco.
    O de Petrópolis foi muito bom porque pude ver o trabalho voluntário aproximando os alunos de várias instituições. O de Juiz de Fora foi bem família e com boas demonstrações.

    7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    Eu tenho ficado em casa e confiando na ciência. Sinto muita falta dos meus companheiros de laboratório e dos alunos. Mas fico perto na minha família.


    8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.)?

    Eu gosto de ler e no momento tenho lido livros de história que tentam explicar o que aconteceu em momentos difíceis da sociedade moderna e biografias de pessoas que admiro. Dois deles são The Looming Tower, sobre 9/11, e A Mind at Play, sobre o nosso Einstein: Shannon.
    Gosto de futebol e do Flamengo. Sobretudo tento entender a gratificação que isso traz a quem não tem nada, como muitos no nosso país.


    9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

    Seja ético, colaborativo, dócil, e não acredite na ideia de que, para ter sucesso, outra pessoa deve fracassar. Acredite em si, estude muito, prepare-se e sinta-se capaz de ser um bom profissional em qualquer lugar do mundo. Só depende de você!


    10. Na sua carreira, o senhor tem convivido com várias gerações de alunos e pesquisadores, que diferenças, similaridades, avanços ou regressos pode destacar?

    Eu não tive muito incentivo para escrever livros, mas gostei de ler muitos livros técnicos. A minha motivação sempre foi organizar melhor as minhas ideias para passar para os alunos. O que percebi é que muitas vezes os alunos que têm acesso direto não dão tanto valor a isso, mas em locais remotos e que nunca pensei em chegar alguém usufruiu do esforço.
    Escrever um livro é um grande esforço e toma tempo de outras atividades, mas pode valer a pena se você escreve para ajudar alguém. Eu vejo que cada um de nós é uma nano partícula de um universo quase infinito, mas se cada um ajudar com qualquer contribuição, a sociedade fica melhor. Se alguém aprender algo com os livros, o esforço já valeu.
    A maior motivação para tudo que faço é estar preparado para orientar e ensinar aos alunos. Os que foram meus orientandos representam a maior recompensa que a carreira me proporcionou.



    Bio: Possui graduação em Engenharia Elétrica Modalidade Eletrônica, Escola Politécnica, Universidade de Pernambuco (1970) e Ph.D. em Eletrônica pela University of Kent at Canterbury, Inglaterra (1976). Atualmente é professor titular na Universidade Federal de Pernambuco. Pesquisador 1A do CNPq (1993-2016). Presidente da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (2004-2008). Fellow do Institute of Mathematics and its Applications (FIMA) e Chartered Mathematician (CMath) desde 1992. Professor Visitante nas universidades de Lancaster (2007-2015), Leeds (2005-2006) e ETH-Zurich (1990-1992). Tem experiência em Telecomunicações, com ênfase em códigos corretores de erros, teoria da informação e criptografia. RID: http://www.researcherid.com/rid/I-6965-2013. Google Citations: https://scholar.google.co.uk/citations?hl=en&user=qGSseQsAAAAJ. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1416-479X



    1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Fiz a graduação em engenharia no período de 1966 a 1970, na Escola Politécnica em Recife, a qual atualmente faz parte da Universidade de Pernambuco. Iniciei como aluno do curso de engenharia mecânica, porém após concluir o segundo ano, meu interesse por matemática me fez decidir pelo curso de engenharia elétrica. Na época, o curso de engenharia elétrica oferecia uma disciplina denominada Matemática Superior Aplicada, além dos tradicionais cursos de Cálculo 1 e Cálculo 2. Uma vez na elétrica, escolhi direcionar minha formação para a área de eletrônica. Ao concluir a graduação, decidi continuar investindo na minha formação e fui para Campina Grande, onde permaneci de 1971 até meados de 1972, como aluno de mestrado e simultaneamente dava aulas no curso de graduação em engenharia elétrica. Fui então aceito como aluno de pós-graduação na University of Kent at Canterbury, onde concluí o Ph.D. no início de junho de 1976, voltado para telecomunicações, em particular, para códigos corretores de erros. Meu doutorado exigiu conhecimentos de matemática de corpos finitos e o projeto e construção de hardware para codificação e decodificação de códigos corretores de erros. A bolsa de estudos da CAPES foi importante durante estes anos como estudante de pós-graduação.
    Retornando ao Recife imediatamente após conclusão do doutorado, consegui um emprego na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e dei continuidade à minha pesquisa em códigos corretores de erros, embora houvesse a opção de juntar-me a um grupo de pesquisa em micro-ondas, que tinha ligação com o Departamento de Física.


    2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

    Após obter o título de Ph.D. em 1976, ingressei na UFPE como Professor Visitante, posição na qual permaneci durante cinco anos. Por meio de concurso tornei-me Professor Adjunto (1981) e Professor Titular (1993). Atualmente ocupo a posição de Professor Titular. Na UFPE participei da criação do programa de pós-graduação em engenharia elétrica (PPGEE) em 1977, tendo ocupado em mais de uma ocasião as funções de coordenador e de vice coordenador do PPGEE. Em 1979, participei da criação do Departamento de Eletrônica e Sistemas, onde ocupei as funções de chefe e de sub chefe. Fui professor visitante no ETH Zurique (1990-1992), Universidade de Leeds (2005-2006) e Universidade de Lancaster (2007). Nessas instituições tive oportunidade de lecionar e de coorientar alunos.


    3. Quais suas referências profissionais?

    Citaria meu orientador de doutorado, Prof. Paddy G. Farrell, com quem aprendi sobre códigos corretores de erros e tomei gosto pela área de comunicação digital. Tive o privilégio de conviver com o saudoso Professor James L. Massey, conseguindo expandir meus conhecimentos na área de criptografia, na época em que ele criou as cifras de chave-secreta IDEA e SAFER. Menciono também os professores Bahram Honary e Garik Markarian com os quais tenho interagido por muitos anos, e que em paralelo às atividades acadêmicas, conseguiram sucesso com as empresas HW Communications Ltd. e Rinicom Ltd., respectivamente.

    4. O senhor tem experimentado cooperações internacionais há bastante tempo, pode nos falar sobre elas e qual a importância nos seus trabalhos e pesquisas dessas cooperações?

    Do ponto de vista de suporte financeiro, a denominada cooperação internacional, no meu caso, sempre se restringiu ao pagamento de diárias e de passagens aéreas. Do ponto de vista acadêmico, considero que a cooperação internacional trouxe também benefícios, talvez indiretos, para a formação de pessoal de pós-graduação do PPGEE-UFPE, e que inevitavelmente alcançam também os alunos de graduação.
    O sucesso de tal cooperação, efetivamente, em geral foi bastante dependente de um conhecimento preexistente entre o proponente e os convidados estrangeiros. Pelo fato de as visitas serem de curta duração, a eventual realização de um trabalho conjunto sempre dependeu de uma colaboração informal que precedia a visita. Ao longo dos anos, com o apoio do CNPq, consegui trazer à UFPE vários pesquisadores estrangeiros, para contatos de pesquisa e seminários, sempre voltados prioritariamente para telecomunicações, códigos corretores de erros e criptografia.
    As discussões informais e visitas técnicas que pude fazer, ao participar de conferências no exterior, também desempenharam um papel importante.


    5. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

    Acredito que o que me motiva a participar de sociedades científicas não é muito diferente da motivação de outros participantes. Uma sociedade científica propicia um ambiente voltado para estimular a atividade de pesquisa e para facilitar o contato entre pesquisadores com interesses em comum. Já a participação em uma diretoria de uma sociedade científica, ou em editoria de revista científica, ou na organização de conferências de uma sociedade científica, proporciona naturalmente a tais indivíduos um conhecimento mais abrangente daquilo que acontece naquela comunidade, em nível nacional ou internacional. Um ganho adicional é a consequente visibilidade adquirida pelo participante, com desdobramentos que podem incluir convite para participação em bancas examinadoras diversas, consultoria ad hoc em comitês para órgãos de fomento, etc. No caso da SBrT isso não é diferente. Em especial, ao longo dos 12 anos nos quais participei da Diretoria da SBrT, sempre contei com a colaboração irrestrita dos colegas diretores e presidentes. Trabalhamos sempre num ambiente de cordialidade e respeito, o que tem colaborado, sem dúvida, para a continuidade e avanços da SBrT.


    6. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

    Tive a honra de participar em 1983 do primeiro Simpósio Brasileiro de Telecomunicações, realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a convite do Professor Roberto Boisson de Marca, que coordenou o evento, ocasião em que foi criada a Sociedade Brasileira de Telecomunicações. Naquela oportunidade pude conhecer os principais pesquisadores brasileiros em telecomunicações presentes ao evento e de ter a satisfação de visitar o Centro de Estudos em Telecomunicações (CETUC), a convite do Professor Weiler Finamore que, salvo engano, era na época o Diretor do CETUC.

    7. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    Por muito pouco não fiquei impedido de retornar ao Brasil em 2020. Estava na Inglaterra e retornei ao Recife em 12 de março. No dia seguinte, vários países europeus suspenderam voos para o exterior. Durante os meses seguintes tratei de observar as recomendações básicas para evitar o contágio, já que pela idade faço parte de grupo de risco. Tenho mantido contato com os alunos e lecionado remotamente por meio da Internet, com o uso de ferramentas disponíveis para tal. Talvez tive sorte de lecionar para um grupo de alunos motivados, chegando até à conclusão do curso sem que nenhum deles tivesse desistido. Todos, no entanto, concordaram que melhor seria se pudéssemos ter tido aulas presenciais. Tenho também mantido minhas atividades de pesquisa interagindo remotamente com meus colaboradores.


    8. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.)?

    Desde a juventude tive interesse em ler biografias, tanto de cientistas como de outras personalidades que tiveram destaque, em nível nacional ou mundial. A lista seria extensa e cansativa, por isso cito apenas alguns exemplos: Abraham Lincoln (autor: Dale Carnegie), Madame Curie (autora: Eva Curie), Enrico Fermi (autor: Emilio Gino Segrè) e Richard Feynman (autores: Richard Feynman e Ralph Leighton). Atualmente consulto a Wikipedia, como fonte complementar para este tipo de conteúdo.


    9. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

    Gostar de verdade daquilo que optar por fazer, ser honesto e ético.


    10. Na sua carreira, o senhor tem convivido com várias gerações de alunos e pesquisadores, que diferenças, similaridades, avanços ou regressos pode destacar?

    De vez em quando ouço frases como "a cada ano as turmas de alunos são mais fracas". Discordo frontalmente de tal afirmação. A única verdade que observo é a de que, a cada ano, os alunos que recebo estão cada vez mais jovens em relação a mim. No universo de alunos que observo há 50 anos, tenho tido a satisfação de encontrar gente muito capaz. Devido a fatores que não me cabe aqui aprofundar, vários desses bons alunos optam por viver fora do Brasil. Por outras razões, entre elas os laços familiares, muitos bons ex-alunos continuam no Brasil e têm colaborado positivamente, tanto para a pesquisa acadêmica como atuando profissionalmente fora da academia.


  • Bio: Possui graduações em Comunicações pela Academia Militar das Agulhas Negras (1981) e Engenharia Eletrônica pelo Instituto Militar de Engenharia (1988), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Brasília (1993) e doutorado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998). Realizou, também, um Estágio Pós-doutoral na Helsinki University of Technology (hoje Aalto University), Finlândia, entre 2004 e 2005. Coronel da reserva do Quadro de Engenheiros Militares do Exército Brasileiro, atualmente é Professor Associado no Instituto Militar de Engenharia onde já foi Chefe do Departamento de Engenharia Elétrica e Vice-Reitor de Ensino e Pesquisa. Foi também Professor Visitante na Escuela Politécnica del Ejército, Equador, 1999 e 2000, e Pesquisador Visitante e Professor Visitante na Helsinki University of Technology, Finlândia, em 1997 e 2006, respectivamente. Foi ainda professor de cursos de curta duração na Universidad de la República (UdelaR, Uruguai, 2015) e na Nanjing University of Astronautics and Aeronautics (NUAA, China, 2016). Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em processamento digital de sinais, atuando principalmente nos seguintes temas: processamento adaptativo de sinais, algoritmos adaptativos com restrições, processamento de sinal de voz e áudio, localização de emissores e processamento em arranjo de sensores. Editou em 2008, pela Springer, o livro QRD-RLS Adaptive Filtering. O Dr. Apolinário é membro sênior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações e senior member do IEEE. Ele organizou e foi o primeiro Presidente do Rio de Janeiro Chapter da Sociedade de Comunicações do IEEE, foi um dos Coordenadores Técnicos do SBrT 2003, no Rio de Janeiro, e foi o Finance Chair do IEEE ISCAS 2011, que ocorreu em maio de 2011 também na cidade do Rio de Janeiro. De 2016 a 2017 foi o Vice-Presidente de Finanças da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT).



    1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Inicialmente, agradeço ao Prof. Edmar o honroso convite para esta entrevista. A minha formação profissional teve duas partes, uma primeira graduação no Curso de Comunicações da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN, Resende-RJ, término em 1981) e, posteriormente, a graduação em Engenharia Eletrônica no Instituto Militar de Engenharia (IME, Rio de Janeiro-RJ, término em 1988). Certamente o que me levou para a área técnica, eletrônica em particular, foi o meu segundo grau na Escola Técnica Prof. Everardo Campos (ETEP, São José dos Campos-SP), onde ainda bem jovem tive a oportunidade de travar contato com minha futura profissão. O que sempre me fascinou foi aplicar conhecimentos teóricos (física e matemática) na solução de problemas práticos; apesar do gosto pela teoria, sou um engenheiro com um pé na prática.


    2. Poderia nos contar sua trajetória profissional?

    Logo após o IME e com a experiência prévia de servir como oficial de comunicações em unidades desta arma em Recife e no Rio, fui trabalhar no Centro de Instrução de Guerra Eletrônica (CIGE, Brasília-DF). Enquanto me dedicava à manutenção de equipamentos de Guerra Eletrônica (GE) e suporte aos cursos de GE do CIGE, fiz o mestrado, em tempo parcial, na Universidade de Brasília (UnB, Brasília-DF, defesa em 1993). Também nesse período, fiz um curso de quatro meses na Rohde & Schwarz, Alemanha, meu primeiro contato internacional na engenharia eletrônica. Nessa oportunidade, os ensinamentos de engenharia eletrônica obtidos no Brasil me deixaram bem à vontade num ambiente de trabalho na Alemanha. Após uma temporada de seis anos no planalto central, voltei ao Rio de Janeiro no final de 1994 para fazer o doutoramento na COPPE/UFRJ (defesa em 1998). Voltei a ser aluno: maravilha de vida (risos), me diverti muito com o Prof. Paulo Diniz e seu grupo; mas também foi um período de muito trabalho e dedicação (eu já era casado e com dois filhos pequenos). Em 1998, fui nomeado professor em comissão no IME. Descontando os dois anos de uma missão no exterior (1999 e 2000) e algumas interrupções de curta duração, estou no IME desde 1998. Lá, ainda como militar da ativa, fui chefe de departamento (engenharia elétrica) e pró-reitor (ensino e pesquisa) chegando a passar uma temporada como Subcomandante do Instituto. Em 2006, no posto de coronel, fui para a reserva e fiz concurso para professor do IME. Assumi o cargo de professor (como servidor civil) do IME em 2007 e progredi na carreira sendo atualmente Professor Associado. Nesse período, me dediquei menos à administração da instituição e mais ao ensino, à pesquisa, a projetos e a outras atividades acadêmicas, incluindo dois anos como Vice-Presidente de Finanças da SBrT.


    3. O senhor fez missões de trabalho fora do país, também foi orientador de pessoas de outras nacionalidades. Pensando nessas experiências, o senhor consegue fazer um paralelo da formação técnica dada no Brasil e nos países que teve contato?

    Estive dois anos como professor visitante na ESPE (Escuela Politécnica del Ejército), na cidade de Quito (Equador) além de alguns períodos mais curtos incluindo estágio pós-doutoral na HUT (Helsinque University of Technology, hoje Alvaar University, Finlândia), mini-cursos (ESPE/Equador, Universidad de la República/Uruguai e Nanjing University of Aeronautics and Astronautics/China) e breves visitas (HUT/Finlândia e USN/Noruega). Orientei e co-orientei alunos de diferentes nacionalidades: equatorianos na graduação da ESPE, paquistanês no mestrado da HUT, peruano no mestrado da UFF, cabo-verdiano no mestrado do IME, chinês na USN (University of South-Eastern Norway ... o cabo-verdiano mencionado, António L. L. Ramos, é hoje professor da USN e foi o orientador principal do chinês na Noruega, wow!), e equatorianos oriundos da ESPE na pós-graduação do IME. Co-oriento atualmente, com o Prof. Wallace Martins (que se encontra passando uma temporada em Luxemburgo), um ex-aluno da ESPE, com mestrado no IME, fazendo doutorado na UFRJ. A globalização está presente entre nós e o contato com pessoas de diferentes culturas é uma experiência muito rica. De quando fiz um doutorado sanduíche na HUT, trago uma amizade de mais de 20 anos com o hoje Prof. Stefan Werner, atualmente na NTNU (Noruega). A minha atuação na ESPE era mais voltada à graduação enquanto que nas demais instituições eu tive menor contato com a graduação e maior com alunos da pós-graduação. A ESPE leva uma influência do IME (Exército Brasileiro) que, há mais de 30 anos, envia professores/assessores para lá.

    Nas universidades europeias, o Tratado de Bolonha, visando uma unificação do ensino e a facilitação do intercâmbio de alunos entre os países signatários, estabeleceu uma estrutura do ensino em três ciclos o que estimulou (observei isso de perto na Noruega) o bacharel em ciências em engenharia elétrica a ir para a indústria (mercado de trabalho) o mais rapidamente possível, com três anos de graduação ou 240 créditos ECTS (European Credicts Transfer System, cada crédito correspondendo a 25 horas de trabalho do aluno). Tal processo, no meu entender, diferenciou o estilo do ensino em engenharia com respeito ao modelo de cinco anos adotado no Brasil (na Europa, cinco anos equivalem a dois ciclos, o segundo correspondendo ao mestrado). Para os educadores, a estrutura curricular é um desafio constante pois temos um tempo finito para ensinar uma carreira que vai se atualizando com enorme velocidade. O assunto é complexo e demandaria mais reflexões do que alguns palpites que eu possa dar em poucas linhas.


    4. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT?

    Sempre tive curiosidade e uma certa atração por sociedades afins com meus interesses. A SBrT foi uma consequência disso, assim como o IEEE, onde também sou membro sênior. A participação no principal simpósio da sociedade é um evento de destaque onde podemos encontrar velhos amigos e fazer novos. A membresia estimula a participação por proporcionar economia na inscrição aos eventos da sociedade. Aos jovens engenheiros ou aspirantes a engenheiros de área correlata às telecomunicações e/ou processamento de sinais, se me permitem um conselho: explorem o que uma sociedade científica como a SBrT pode fazer para você e sua carreira. Os jovens se engajando nessas sociedades garantirão o futuro delas e os benefícios pessoais e profissionais às gerações vindouras.


    5. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

    O primeiro simpósio que participei foi o Telemo’92, realizado no Centro de Treinamento da Telebrás, em Brasília. Foi um simpósio conjunto entre a SBrT (X SBT) e a SBMO (Sociedade Brasileira de Microondas). Mas meu primeiro artigo de conferência, embora eu não tenha atendido ao evento, foi no ano seguinte (1993) no XI SBT, em Natal-RN. Sempre gostei de participar dos eventos da SBrT. Dentre eles, destaco o de 2003, na cidade do Rio de Janeiro, no qual a sociedade celebrava 20 anos; neste simpósio eu fui um dos coordenadores técnicos. A organização de eventos dá trabalho, mas é muito gratificante. Um outro que, de certa forma, me marcou foi o de Curitiba (XXIX SBrT) onde apresentei, juntamente com um caríssimo colega de trabalho, um minicurso; também deu muito trabalho e também foi muito gratificante. Isso parece um aluno se lembrando de sua escola vinte anos depois de formado, ele sempre tende a se lembrar dos professores que o colocaram para trabalhar mais. :-)


    6. Considerando que a SBRT é um fórum que reúne profissionais de Telecomunicações e Processamento de Sinais no Brasil, alguma ideia de como podemos ampliar a abrangência da nossa sociedade?

    A mudança de nome do simpósio foi muito bem-vinda para pessoas como eu, que não trabalha especificamente com telecomunicações, mas com métodos e técnicas de processamento digital de sinais (PDS) que podem ser aplicadas também em telecomunicações. Isso certamente está ampliando a abrangência da sociedade pois não temos no Brasil um outro fórum específico para processamento de sinais. Espero contarmos cada vez mais com especialistas que usam ferramentas de PDS em diversas aplicações (biomedicina, processamento de sinais sísmicos, processamento de sinais subaquáticos, radar, aplicações financeiras, e outras presentes na chamada de trabalhos do simpósio desse ano). A abrangência da sociedade, em minha opinião, poderia ser ampliada tirando proveito da experiência adquirida na situação que vivemos: nessa pandemia, professores e alunos tiveram que explorar os recursos tecnológicos disponíveis para poderem se comunicar. Dessa forma, uma vídeo-aula ficou mais natural tanto para quem prepara e ministra quanto para quem assiste. Espero que o simpósio desse ano, que será virtual, seja um grande sucesso e leve as atividades (plenárias, palestras convidadas, minicursos e sessões técnicas) a um público maior. Minha ideia para ampliar a abrangência da sociedade seria a sociedade disponibilizar conhecimento: um exemplo é a possibilidade de acesso online aos minicursos, ou quem sabe micro cursos, talvez após alguma edição e preparando-os já com esse objetivo, ministrados durante o simpósio anual da sociedade. Alinhado a esta ideia, já encontramos no site da sociedade a disponibilização de palestras convidadas. Não podemos nos esquecer de estimular nossos membros a divulgar a SBrT em suas instituições.

    Por último, uma atividade que já vem sendo realizada em diversas conferências internacionais e em algumas versões do SBrT é a competição entre estudantes: uma base de dados é usualmente disponibilizada, as regras são estabelecidas e quem conseguir o melhor resultado ganha um prêmio. O desafio sempre foi uma coisa muito motivadora para todos, em particular para os jovens estudantes de engenharia.


    7. Quais suas referências profissionais?

    Não posse deixar de mencionar meus estimados orientadores. Na graduação do IME, o saudoso Prof. Alcyone Fernandes de Almeida Júnior. Na pós-graduação, o Prof. Henrique Sarmento Malvar (mestrado na UnB) e Paulo Sérgio Ramirez Diniz (doutorado na COPPE/UFRJ), ambos Fellow Members do IEEE e ambos membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Todos profissionais muito competentes que ajudaram a moldar o meu perfil. Menções especiais ao Prof. Luiz Pereira Calôba (também membro da ABC e Professor Emérito da COPPE/UFRJ, foi orientador de mestrado dos meus orientadores de mestrado e de doutorado, sendo, portanto, meu avô acadêmico) e ao Prof. Marcello Luiz Rodrigues de Campos, Professor Titular da COPPE/UFRJ e parceiro de pesquisa por mais de 20 anos. Internacionalmente, muitos são os nomes que eu poderia mencionar como referência profissional mas abrevio lembrando do Prof. Harry Leslie Van Trees que teve uma trajetória com uma certa similaridade com a minha (claro que muitos e muitos dBs acima, mais risos) por ter primeiro passado por uma academia militar e depois se dedicado à pesquisa e ao ensino. Sua obra, publicada em quatro volumes, tem sido marcante nas disciplinas de pós-graduação em engenharia elétrica, nas linhas de pesquisa alinhadas às aplicações de processamento digital de sinais.


    8. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    A pandemia de COVID-19 está sendo muito ruim para todos. Alguns são afetados num grau maior ou menor, mas estamos vivendo uma época marcante em escala mundial. A pandemia tem afetado fortemente o ensino. A pesquisa, quando não se depende de laboratórios e de reuniões presenciais, pode ser realizada em casa; ainda assim o contato com as pessoas e as rotinas de nosso dia a dia fazem falta. A falta de tomar aquele cafezinho os companheiros de trabalho, trocando ideias sobre trabalho ou assuntos extraclasses, está mostrando o valor da rubiaceae cum amicis. No IME, paramos três semanas e já iniciamos o ensino a distância, online. Muito trabalho para gravar aulas, explorar novas ferramentas e se fazer presente num ambiente virtual. Hoje, já tendo me acostumado com o novo ambiente, estou em regime estacionário com respeito às minhas aulas. Em alguns aspectos, tivemos ganhos: alguns alunos me comentaram que o material à disposição (gravações, slides, programas feitos em aula) ficou mais farto e com isso tiveram mais facilidade de estudar minha disciplina. Outros, mais particularmente alunos da graduação, tiveram maiores dificuldades quer seja pelo ambiente familiar não facilitado ou pelo acesso deficitário à internet. Estes mesmos motivos foram, de uma maneira geral, a razão da demora na volta às aulas (virtuais) nas universidades. Certamente teremos um enorme prejuízo na educação por conta da pandemia.


    9. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.)?

    Já fui um leitor bem mais voraz. Hoje em dia, confesso que as plataformas de streaming têm tomado meu tempo. :-| Fontes de informação unbiased são um novo problema ... antigamente eu assinava um jornal e o lia sem a desconfiança de hoje. Mas continuo dando uma espiada diária no jornal que assino e nas headlines de jornais estrangeiros (BBC, por exemplo), além do resumo das notícias do dia em uma lista de amigos (num aplicativo social). Revistas, só (eventualmente) as especializadas em vinhos, single malts e charutos (o Clube da Fumaça composto por algumas das pessoas mencionadas nesta entrevista está em quarentena, mas é bem ativo em tempos normais). Eu jogava xadrez no spéculo passado; hoje em dia, só brinco com os puzzles do aplicativo Chess, quando sobra um tempinho. Para relaxar gosto de preparar uma seleção no Spotify e dar uma caminhada. Tempos atrás eu gostava de correr, de duplas de vôlei e de tênis de mesa (aliás, estimado colega da USP que queira uma revanche, estou sempre a postos. ;-)


    10. Que conselhos o senhor daria a um jovem que está iniciando sua vida profissional em engenharia?

    Aqui serei breve, faça de seu trabalho uma diversão e vá se divertir bastante, todos os dias! A engenharia é muito divertida. A pesquisa, para aqueles que a apreciam, melhor ainda. E vão te pagar para você se divertir.


    Bio: Formada em Engenharia Elétrica – opção Eletrônica (UFPa, 1980), mestre em Engenharia Elétrica (UNICAMP, 1983) na área de Otimização e Pesquisa Operacional e doutora em Engenharia Elétrica (UNICAMP, 1991) na área de Confiabilidade de Software. Trabalhou como pesquisadora nos projetos Trópico do CPqD TELEBRÁS entre 1981 e 1996 nas áreas de Confiabilidade de Hardware, Tráfego Telefônico Teste de Sistema e Confiabilidade de Software. Foi Assessora da Qualidade do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações - CPqD entre 1996 e 1999, coordenando a adequação dos laboratórios para credenciamento INMETRO, a implantação dos requisitos da ISO 9001 e implantando Programa de Qualidade de Software. Foi responsável, de janeiro de 2000 a fevereiro de 2013, pela Gerência de Arquitetura Empresarial (até 2009 Gerência de Processos) na Diretoria de Soluções de Inteligência de Negócios do CPqD, onde desenvolveu mais de 160 projetos de Reorganização de Processos, Governança de Tecnologia e Arquitetura Organizacional para empresas dos setores de Telecomunicações, Energia, Governo e outros. Trabalhou no CTI - Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer de 2014 a 2016, no desenvolvimento de metodologia de avaliação de P&D e Inovação em Tecnologias da Informação e Comunicação. Atuou, ao longo do ano de 2017, em projeto para a UNESCO para desenvolvimento de políticas públicas de P&D e Inovação.

    Atuou como representante do Brasil na ISO - International Organization for Standardization - de 1995 a 2015, participando da elaboração das versões 2000 e 2008 das Normas de Qualidade ISO 9001 e dos Grupos Nacional e Internacional de Interpretações dessas normas. Foi professora do curso de Mestrado em Engenharia Elétrica da PUC-Campinas de 2002 a 2005, do curso de Especialização em Gestão de Sistemas Multimídia da Metrocamp em 2009. Foi Membro do Conselho Deliberativo da SBrT - Sociedade Brasileira de Telecomunicações nas gestões de 2000 a 2008 e de 2014 a 2018. Foi Tesoureira da SBrT nas gestões de 1996 a 1998 e 1998 a 2000 e presidente nas gestões de 2010 e 2012. Recebeu a indicação de Sócio Sênior em 2008 de Sócio Emérito em 2017.



    1. Como foi a sua formação profissional? Como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Eu não tinha uma escolha clara com relação à profissão. Sempre estive entre os melhores alunos do Colégio Moderno, em Belém do Pará, não exatamente porque gostasse de estudar, mas sim porque sou curiosa e gosto de aprender. Quando estava no Convênio, o meu professor de Física, percebendo que eu gostava muito dessa ciência que combinava matemática, natureza, curiosidade e método, passou a me levar aos saraus promovidos aos sábados pelos professores de diversas faculdades de Exatas na Universidade Federal do Pará (UFPa), onde ele cursava Engenharia Eletrônica. Virei frequentadora assídua, a mascote daqueles que viraram meus ídolos e decidi firmemente cursar Física. A poucos dias da inscrição para o Vestibular, no entanto, fui vítima de fogo cruzado, ficando entre meus pais, que pensavam que eu teria um campo de atuação muito restrito sendo professora universitária de Física e daquele grupo, encabeçado pelo respeitado professor José Maria Filardo Bassalo, da faculdade de Física, que dizia que o curso estava muito fraco naquela época. Resisti muito ao complô, e a melhor solução negociada entre todos foi o curso de Engenharia Eletrônica, que estava fortalecido pela volta de mestres e doutores da UNICAMP, e com ótimos professores visitantes (entre eles os professoeres Weiler Finamore e Hélio Waldman). Eu era a única mulher da turma, e sempre era escalada pelos colegas para negociações difíceis como, por exemplo, adiamentos de provas. Não consegui fazer estágio, pois as empresas, na época, só aceitavam homens. Lembro de um recrutador da Petrobrás que exigiu que me retirasse da sala para fazer sua apresentação sobre o programa da empresa. Meus professores tiveram que interceder perante a Universidade para que minha participação em projetos de pesquisa fosse aceita como estágio. Ser mulher num curso de Eletrônica era tão inusitado em Belém, na época, que eu tive que vestir um smoking para não destoar da turma na foto de formatura.

    Tinha a certeza de que não gostava de hardware, mas o uso aplicado da Matemática me conquistou, e eu resolvi fazer mestrado em Eletrônica. No último ano, o professor Jurandir Garcez, da EE da UFPa, levou a mim e a mais dois colegas de turma com aspirações acadêmicas a conhecer o CETUC, o ITA e a UNICAMP, e nós três escolhemos esta última, pela qualidade do quadro de professores.


    2. Poderia nos contar sua trajetória profissional? Deve ter havido momento difíceis nela, como a senhora lidou com eles?

    A primeira dificuldade foi encontrar onde morar, em Campinas, onde cheguei em março de 1981. As imobiliárias não alugavam imóveis para mulheres solteiras sozinhas, e eu não tinha colegas mulheres com quem compartilhar. Enquanto procurava, fiquei dois meses hospedada na casa do professor Gervásio Cavalcante, conterrâneo que fazia doutorado na época, e a quem sou muito grata. Foi preciso financiar, pagando com 2/3 da bolsa de mestrado do CNPq, uma quitinete de 27m2 para poder me instalar. Fui a primeira orientanda de mestrado do Prof. Jurandir Fernandes, na equipe de Pesquisa Operacional da Engenharia Elétrica, e minha dissertação fazia parte do Convênio de Redes Digitais que a UNICAMP mantinha com a Telebrás, numa época em que o mundo das Telecomunicações estava se digitalizando. Desenvolvemos um conjunto de modelos para otimização da expansão de redes telefônicas locais. A equipe, comandada pelo Prof. Hermano Tavares, era muito produtiva e acolhedora, e esses foram anos em que aprendi e me diverti muito. Para fazermos nossas simulações matemáticas com a capacidade de processamento do DECsystem-10 do CPqD só para nós, entrávamos lá no fim do expediente, quando todos saiam, e passávamos as madrugadas trabalhando. Quando a compilação dava algum problema, ligávamos um radinho e dançávamos nos corredores antes de analisar o algoritmo. O ambiente de diversidade, liberdade, pluralidade, simplicidade e brilhantismo técnico me encantaram. Também vivi de perto, como candidata a única representante dos estudantes de pós-graduação no Conselho Diretor da universidade, a intervenção na UNICAMP, que foi um período marcante para todos os que estavam lá na época. Logo que terminei os cursos, ao final de 1982, fui convidada a gerenciar o convênio de Redes Digitais por parte do CPqD, agora como contratada pela TELEBRÁS, na área de Área de Garantia de Qualidade do projeto da central telefônica TRÓPICO RA.

    Nesse período, além de cuidar do Convênio, trabalhei com testes de Sistema e na avaliação de confiabilidade das placas de hardware da central e coordenei grupo de definição de Indicadores de Desempenho de Comutação e de Software de todo o Sistema TELEBRÁS. Conclui o mestrado em outubro de 1983, mas continuava a cursar disciplinas na UNICAMP por puro prazer de aprender, originalmente sem a pretensão de terminar o doutorado. Tive minhas filhas em 1984 e em 1986, então o foco era a construção da minha família. Em 1988 o CPqD me propôs fazer a tese de doutorado em confiabilidade de software, um assunto novo na época, e de interesse para o projeto. Fizemos um arranjo em que o meu orientador seria o Professor Hermano Tavares, o coorientador o Professor Jorge Moreira, meu gerente na Área de Garantia da Qualidade de Sistemas e trabalharíamos em estreita cooperação com o LAAS (Laboratoire d' Automatique et d' Analyse de Systèmes) em Toulouse, França, referência mundial no assunto à época. Eu calculava e projetava a probabilidade de falha do software do TRÓPICO RA orientando a liberação das versões a campo, e meu trabalho científico tinha aplicação imediata no projeto, antes mesmo dos artigos serem publicados em congressos e revistas. Pesquisa aplicada, felicidade pura.

    Graças ao trabalho em confiabilidade de software, fui convidada pela ABNT para coordenar o grupo de trabalho nacional de revisão da norma de Qualidade de Software e, a partir daí, participei da delegação brasileira que representava o Brasil na ISO/TC 176 Quality Management and Quality Assurance da ISO (International Organization for Stardardization) de 1995 a 2008. Esse trabalho foi muito gratificante, pois tive a oportunidade de conhecer países diferentes e profissionais extremamente qualificados de diversos setores, além de telecomunicações, e de aprender a arte da negociação de interesses internacionais. No CPqD, nessa época já privatizado, e não mais parte da TELEBRÁS, passei de pesquisadora de Telecomunicações a responder ao presidente como Assessora da Qualidade, trabalhando na certificação dos laboratórios e do processo de desenvolvimento de software.


    Aí chegou o momento mais difícil de minha carreira. Fui designada para montar uma equipe de consultoria em processos operacionais de Telecomunicações, preparando as Operadoras para receber e utilizar da melhor forma os sistemas de software de operação de telecomunicações desenvolvidos pelo CPqD. Tive que dizer adeus à pesquisa, ao trabalho já com reconhecimento internacional na ISO e a desapegar dos resultados do trabalho de anos em Qualidade para o CPqD, que se concretizariam em breve. Levei mais de um ano para me recuperar e abraçar a nova carreira gerencial que se abria à minha frente. Só consegui equacionar essa dificuldade no meu coração quando comecei, em paralelo, a dar aulas no Mestrado Profissional de Gerência de Redes de Telecomunicações da PUC Campinas, o que me aproximou novamente da pesquisa.

    A aceitação da nova realidade foi o que me permitiu fazer prosperar o trabalho de consultoria em Processos. De 2001 a 2013, gerenciei a equipe que foi responsável por mais de 160 projetos de P&D e de consultoria em Reorganização de Processos, Governança de TI e Arquitetura Corporativa. Nessa época, tivemos a oportunidade ímpar de conhecer a operação de praticamente todas as empresas de telecomunicações do país, que estavam se fundindo ou criando empresas celulares. A seguir, ampliamos nossa atuação para organizações dos setores Elétrico, Indústria, Financeiro, Ministérios, Governo Estadual e Municipal e fizemos projetos internacionais nos EUA, Angola e em países da América Latina. O trabalho que eu inicialmente demorei a aceitar foi o que me proporcionou uma vida profissional extremamente rica.

    3. Que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT? A senhora foi presidente da sociedade, nessa experiência o que gostaria de destacar?

    Participar de uma Sociedade científica propicia um ambiente de divulgação de trabalhos de pesquisa, de integração e de troca com outros grupos. Em especial, a SBrT, pois seus eventos e sua revista sempre foram respeitados por sua seriedade e qualidade técnica. Além disso, nos mantermos juntos e organizados nos permite ter voz e representação perante os órgãos de pesquisa de nosso país e interagir com sociedades internacionais congêneres.

    Na presidência da SBrT procurei estimular os jovens a verem a Sociedade como uma referência para toda a sua vida profissional, pois é um ambiente que lhes oferece relacionamentos, apoio e oportunidades de crescimento. Para mim, foi assim, um espaço de individuação. Publiquei e revisei artigos, coordenei sessões, organizei eventos, ocupei diferentes cargos e recebi, sempre com gratidão a homenagem pelos 20 anos da SBrT, e o reconhecimento como Sócio Sênior em 2008 e Sócio Emérito em 2017.

    O meu maior desafio na presidência da SBrT foi coordenar duas Diretorias formadas por cientistas brilhantes, da maior relevância no cenário de Telecomunicações, e por quem eu tenho a maior admiração. Para isso, eu me apoiei na competência e na vivência deles na Sociedade, e procurei contribuir com a visão de organização que eu trazia de fora do mundo acadêmico. Essa parceria deu muito certo e penso que conseguimos juntos melhorar a SBrT em muitos aspectos.


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de nos contar?

    Sempre fez parte natural do meu trabalho publicar e revisar artigos em revistas e eventos de diversas sociedades científicas, mas só em 1989 apresentei o primeiro artigo no 7º Simpósio da SBrT. Dali em diante, passei a participar de quase todos os seus eventos, como autora ou revisora.

    Um dia eu estava na fila do banco e Hélio Marcos Machado Graciosa, na época Diretor no CPqD e Presidente da SBrT, que também esperava ser atendido, me perguntou quais eram os meus planos para setembro de 1995, dali a quase dois anos. Como respondi que não tinha, ele me convocou para cuidar dos Arranjos Locais do 13º SBrT, cuja coordenação geral seria feita por ele, com coordenação técnica do professor João Marcos Travassos Romano, da UNICAMP. Nesse evento, fizemos uma inovação ousada, que foi hospedar todos os participantes no hotel do simpósio, em Águas de Lindóia. O trabalho foi grande, pois fizemos tudo sozinhos, sem o auxílio de uma empresa de eventos, por falta de recursos da Sociedade. O meu envolvimento nesse evento foi tão grande, que a brincadeira preferida das minhas filhas passou a ser, por imitação, a de organização de congressos. Mas isso resultou num ambiente descontraído e de muita integração, do qual todos lembramos até hoje e ainda dobramos o caixa da SBrT. Acho que esse foi um dos motivos pelos quais fui convidada a participar como Tesoureira nos dois períodos sob a gestão do professor José Mauro Pedro Fortes, de 1996-97 e na de 1998-2000. Em dezembro de 1999, no Rio de Janeiro, a SBrT viabilizou com muito sucesso a IEEE Globecom, a maior e mais prestigiada conferência internacional na área de telecomunicações. A conferência teve como Presidente o Professor José Roberto Boisson de Marca da PUC-Rio e eu participei como coordenadora de publicações. A partir daí, fiz parte do Conselho da SBrT em diversas gestões, de 2000-2006, e de 2014-2016.

    Recebi a confiança dos associados da SBrT para presidir a Sociedade por dois períodos, de 2010-2011 e 2012-2014, o que para mim foi uma honra. O primeiro evento da gestão, o International Telecommunication Symposium 2010 realizado em Manaus, teve problemas financeiros, e percebemos que precisaríamos estruturar mais a organização de simpósios, a revista e as finanças da SBrT. Nessa época eu já estava afastada da pesquisa e do mundo acadêmico, então procurei contribuir com a experiência de planejamento e de estruturação de organizações que trazia do trabalho de consultoria do CPqD. Fiz muitas mudanças na Sociedade, e agradeço o apoio que recebi dos colegas da Diretoria e do Conselho, pois foram quebrados diversos paradigmas.


    5. Considerando que a SBrT é um fórum que reúne profissionais de Telecomunicações e Processamento de Sinais no Brasil, alguma ideia de como podemos ampliar a abrangência da nossa sociedade?

    Vivi de perto as discussões que levaram a essa ampliação e vejo com naturalidade a evolução da Sociedade, pois ela segue as transformações não só da ciência e da tecnologia, como também de seus campos de aplicação. Não é raro percebermos que uma técnica desenvolvida inicialmente para responder a uma questão de telecomunicações tem grande utilidade na medicina ou na geologia. E, assim, o foco de pesquisa vai sendo ampliado em algumas áreas e restringido em outras, conforme a necessidade da sociedade, a quem a pesquisa, na minha opinião, deve servir.



    6. Quais suas referências profissionais?

    Institucionalmente, minhas referências são o CPqD, a UNICAMP, a ISO, o LAAS e a UFPa. Meus professores de faculdade da UFPa que me ensinaram a amar o conhecimento e a admirar e a aprender com quem o tinha. Meus orientadores, Jurandir Fernandes de mestrado, Jorge Moreira de Souza, Hermano Tavares e Karama Kanoun de doutorado que me desafiaram a dar o meu melhor, mas ao mesmo tempo me apoiaram e encorajaram nessas aventuras. Pierre F. Caillibot, Denis Pronovost e Eduardo Wohlgemuth me ensinaram a liderar pelo exemplo e com leveza em situações complexas de negociação internacional, nos grupos de trabalho da ISO/TC 176. Na SBrT, os companheiros de Diretoria e Conselho, e especialmente os presidentes que vieram antes de mim, que me ajudaram com gentileza e sabedoria sempre que precisei. Os colegas de trabalho no CPqD, companheiros de tantas aventuras, foram, e ainda são, o meu grupo de apoio profissional.


    7. Como a senhora tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    Eu me aposentei do CPqD em julho de 2013. Depois disso, integrei por dois anos a equipe de pesquisa do Centro de Pesquisa Renato Archer – CTI para desenvolver metodologia de caracterização e avaliação de P&D e Inovação em software, e nesse projeto já trabalhava em casa a maior parte do tempo. A seguir, em 2017, participei de um projeto para a UNESCO para desenvolvimento de políticas públicas de P&D e Inovação que foi executado quase que totalmente com a equipe em home office. Tive que me adaptar rapidamente, a partir do ambiente corporativo no CPqD, no qual as reuniões duravam no máximo uma hora, as pessoas e os telefones disputavam a minha atenção ininterruptamente o dia todo e os compromissos brotavam na agenda para o silêncio de minha casa e o gerenciamento do meu próprio tempo. Assim, a pandemia não mudou muito os meus hábitos de trabalho. O que mais sinto falta é da troca de ideias, das piadas, do café com as pessoas. A convivência nos enriquece. Mas vejo a pandemia como uma ótima oportunidade para quem trabalha com pesquisa. É o momento de atualizar estudos e de escrever aqueles artigos adiados.


    8. A senhora tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.)?

    Sempre encontrei inspiração nos hobbies das mulheres fortes com quem tive o privilégio de conviver em minha família e que deixaram como legado para as próximas gerações as peças maravilhosas que elaboraram. Faço crochê desde criança, que aprendi com minha mãe e com minha avó paterna, e passei por períodos de pintura em porcelana, patchwork, macramê, frivolité, bordado livre e outros. Os trabalhos manuais são a minha forma de acalmar a mente.

    Fui uma criança que tinha que se esconder da mãe para ler, de tanto que eu gostava. E leio vários livros ao mesmo tempo. As preferências são ecléticas e podem ser bem exemplificadas pelos livros que estou lendo atualmente: Impossibility, the Limits of Science and the Science of Limits, de John D. Barrow, The Selfish Gene, de Richard Dawkins, e Do Mil ao Milhão, de Tiago Nigro. Também gosto de aprender línguas, pela liberdade de viajar e poder me comunicar com as pessoas e de ler em inglês, francês espanhol e alemão.

    Como trabalho voluntário, presido atualmente a APOS – Associação de Aposentados da Fundação CPqD e participo da Diretoria da FENAPAS, que é a Federação de Aposentados do Setor de Telecomunicações, em defesa dos nossos direitos.


    9. Há muitas ações para aumentar a participação feminina na engenharia, sendo a senhora é um exemplo de sucesso, o que diria para uma jovem que está iniciando na carreira?

    Tive dificuldades mais por ser a única ou mesmo a primeira mulher em diversas posições em que trabalhei, mas isso me deu a oportunidade de ser quem eu era, uma vez que não tinha referências para seguir.

    O mundo corporativo de engenharia e tecnologia ainda é predominantemente masculino, então temos que garantir processos justos, e que as mulheres tenham apoio e condições de se desenvolver mesmo em situações que ainda não são perfeitas em igualdade. Esse mundo ainda é, mas não precisa continuar assim.

    Encontre mentores, pessoas mais experientes em seu campo de atuação em quem você confie e converse constantemente com eles sobre o seu desenvolvimento. Estude e aprenda sempre, e acredite em você. Apoie seus colegas e, especialmente, outras mulheres, formando sua rede de suporte dentro e fora do seu ambiente de trabalho. Mostre a seus colegas como é importante eles acolherem e integrarem vocês.

    Para mudar o mundo, você precisa ser a mudança que quer ver nele. Isso requer muito preparo, vontade, energia, confiança, resiliência e perseverança? Sim, mas se você reparar, são as mesmas competências requeridas para ser uma Engenheira Eletrônica, então você já as tem. Lute por você, pelas que vieram antes e pelas que virão depois.

    O meu sonho é somar as nossas características femininas a esse mundo masculino da Engenharia, para torná-lo um lugar mais diverso, mais rico e mais feliz para todos nós, homens e mulheres.


    10. Imaginemos que existe um mecanismo que nos devolve a juventude, mantendo a experiência, considerando que isso acontecesse hoje, que caminhos profissionais (ou pessoais caso queira incluir na resposta) a senhora trilharia?

    Eu tive muitas profissões a partir da Engenharia Eletrônica e trabalhei em diversas organizações, ainda que lastreada por 30 anos no CPqD. Tive que fazer muitas escolhas, mas em cada uma delas eu tinha clareza do que estava abrindo mão, portanto não tenho arrependimentos. Segui o caminho por onde eu achava que seria mais feliz, dadas as restrições das circunstâncias.

    Sempre encontrei um jeito de fazer o que eu queria, fosse em paralelo ou de maneira alternativa. Assim, a SBrT foi um espaço onde pude acompanhar a vida acadêmica que eu planejava seguir quando jovem, e também aplicar o conhecimento na prática, como eu sempre gostei, no âmbito dos projetos do CPqD.

    Na vida profissional, aprendi que abraçar a realidade possível, o trabalho que se nos apresenta e fazê-lo da melhor forma que você pode, abre espaço para possibilidades nunca imaginadas.


    Bio: É graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (1982), onde também obteve o título de mestre (Física, 1987). Realizou seu doutorado na Universidade Técnica de Braunschweig, Alemanha, na área de Engenharia Elétrica (1994) e seu pós-doutorado na Universidade de Sydney, Austrália (2007). Atualmente é professor titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, onde leciona disciplinas relacionadas às áreas de fotônica e telecomunicações e lidera um grupo de pesquisa com enfoque em telecomunicações e comunicações ópticas. Tem atuado no desenvolvimento tecnológico junto a empresas, institutos de pesquisa e universidades, cuja colaboração resultou no desenvolvimento de softwares, protótipos inovadores e diversos artigos arbitrados em periódicos e anais de conferências nacionais e internacionais. É membro da Sociedade Brasileira de Microondas e Optoeletrônica (SBMO), membro senior da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT), na qual atuou como vice-presidente de Finanças entre 2012 e 2015, membro da Sociedade Brasileira de Ótica e Fotônica (SBFoton) e membro senior da The Optical Society (OSA). Foi membro do Conselho Universitário (2010-2013), do Conselho de Pesquisa e Pós-Graduação da UTFPR (2014-2017) e diretor de Pesquisa e Pós-Graduação do Câmpus Curitiba da UTFPR entre 2014 e 2017. É bolsista de Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora, nível 1D, do CNPq.



    1. Como foi a sua formação profissional? O senhor é físico de formação mas tem tido atuação destacada em Telecomunicações, como foi essa escolha? O que lhe levou para a sua área de pesquisa?

    Quando falamos de formação profissional creio que não possamos nos limitar apenas a aquele período de formação superior. Temos que voltar à nossa adolescência e mencionar a fascinação que a área de ciências e de engenharia desperta nos jovens. Frequentei o ensino médio no Colégio Naval, em Angra dos Reis, onde as disciplinas de matemática, física e química tinham um forte apelo. No último ano do colégio tive dois professores que me influenciaram bastante, o Prof. Armando, que lecionava Álgebra, e o Prof. Délio que lecionava Mecânica e Dinâmica. Foi daquela época meu interesse inicial pela Física e, em particular, pela Ótica, embora não imaginasse que anos mais tarde a Fotônica e suas aplicações iriam se tornar meu principal campo de investigação. A motivação pela carreira militar pouco me despertou e ao finalizar o terceiro ano prestei vestibular para o curso de Física na Unicamp, tendo entrado no bacharelado em 1979. Foi uma mudança e tanto do ponto de vista de novos aprendizados e convívio em um ambiente plural e diverso. Lembro-me que não havia uma orientação acadêmica muito próxima do estudante, como a conhecemos nos cursos atuais. Embora houvesse uma grade a ser seguida, frequentávamos muitas disciplinas ao sabor de nosso interesse e motivação, o quê, na verdade, nos proporcionava uma grande liberdade e flexibilidade. O Instituto de Física Gleb Wataghin possuía vários professores de renome, como César Lattes, Rogério Cézar de Cerqueira Leite e José Ellis Ripper Filho, entre outros. Naquela época o Prof. Ripper já fazia uma veemente defesa da ligação entre a Academia e o setor produtivo, em particular na área de Microeletrônica. Diga-se de passagem, o Prof. Ripper foi um dos fundadores da AsGa Microeletrônica e um dos pioneiros na criação de spin-offs de alta tecnologia no Brasil. Mas foi no mestrado que meu interesse pela Ótica e pelo Eletromagnetismo se tornou mais forte. Findo o mestrado em um tópico de caracterização ótica de filmes finos, tive a oportunidade de ser contratado, em 1987, como pesquisador no grupo de sensores óticos do Instituto de Estudos Avançados (IEaV) do Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) em São José dos Campos, que tinha como foco o desenvolvimento de um giroscópio ótico para aplicação em aviões e foguetes. Foi lá que tive o primeiro contato com as fibras óticas e sua aplicação, não apenas em sensoriamento, mas em telecomunicações. Vale aqui lembrar o importante papel do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) da Telebras em Campinas, que abrigava diversos grupos de pesquisa e laboratórios dedicados ao desenvolvimento de dispositivos optoeletrônicos e em fibra ótica. Naquela época já se iniciavam as primeiras implantações de enlaces óticos e se consolidava o papel fundamental das comunicações óticas na infraestrutura de telecom no país e no mundo. Mas foi nos anos seguintes que o meu interesse em telecom se fortaleceu. Desejando fazer o doutorado no exterior, obtive uma bolsa do Serviço Acadêmico Alemão (DAAD) para realizar, inicialmente, um doutorado sanduíche no Instituto de Altas Frequências na Universidade Técnica de Braunschweig. O Prof. Hans-Georg Unger, pioneiro no desenvolvimento das comunicações óticas em nível europeu, era o diretor do Instituto, cujo grupo dedicava-se ao estudo e desenvolvimento de métodos e ferramentas para o cálculo de propagação de ondas em estruturas fotônicas. O Instituto abrigava também outros grupos de pesquisa com foco em Microondas e Optoeletrônica. No final, meu interesse se voltou mais à fabricação e caracterização de guias de onda em substratos semicondutores, estruturas básicas para a fabricação de circuitos fotônicos, cujo desenvolvimento e crescimento estamos vendo ocorrer com maior frequência nos dias de hoje. E foi nesse tema que acabei realizando o doutorado completo na TU Braunschweig. Voltando ao Brasil no final de 1994, já sem o vínculo com o CTA, fiquei envolvido por alguns meses com um projeto de um dispositivo sensor na ASGA Microeleletrônica. Embora breve, o período me fêz admirar o esforço e a dedicação de seus fundadores em transferir conhecimentos gerados na academia para a indústria. Contudo, uma oferta para trabalhar na empresa Furukawa Industrial me trouxe a Curitiba em 1995. E foi nessa empresa que participei de forma mais efetiva em projetos na área de telecom, auxiliando na implantação de diversas redes óticas fibra-coaxial para transmissão de sinais banda larga, particularmente TV a Cabo em regiões metropolitanas. Finalmente, após quase seis anos na empresa, e com uma crise mundial assolando o mercado, decidi retornar ao meio acadêmico em 2001 a partir de um concurso público no então Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (CEFET-PR), hoje conhecido como Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). E assim, lá se vão mais de trinta anos trabalhando em telecom, entre atividades de ensino, orientação, pesquisa, desenvolvimento e gestão.


    2. Durante sua carreira o senhor interagiu com os sistemas educacional brasileiro, alemão e australiano? Pode nos falar sobre as diferenças que observou? Há algum ponto que o senhor gostaria de destacar nessas experiências?

    Foram diferentes momentos, cada qual marcado por suas peculiaridades. Nossa graduação e, em particular, nossa pós-graduação seguem o modelo norte-americano, com a necessidade de frequência às disciplinas e obtenção de créditos. O aluno é basicamente tutelado ao longo do curso. Por um lado isto é necessário e salutar, mas por outro penso que isto lhes tolhe a iniciativa, deixando-os dependentes do sistema. No modelo alemão e europeu, os estudantes aprendem a ser mais independentes e auto-suficientes. Os períodos de aulas são menores, exigindo mais atividades e dedicação dos alunos fora de classe. Isto os obriga a ter mais disciplina e foco. Em 2007, durante o estágio pós-doutoral na Universidade de Sydney, não me envolvi com atividades de ensino, embora tenha notado que o modelo australiano siga os contornos do modelo europeu (britânico) e as mesmas premissas. Entretanto, uma característica que me chama a atenção em todas essas instituições diz respeito ao aspecto meritocrático e à gestão de sua infraestrutura. A questão da gestão é particularmente importante, pois o apoio às atividades de ensino, manutenção de laboratórios e investimentos na pós-graduação impacta de forma muito positiva o desempenho docente e o tempo dedicado por estes à preparação de aulas e orientação de estudantes. No Brasil conhecemos bem essas deficiências, difíceis de serem corrigidas sem maior apoio e recursos. Ao mesmo tempo, já é amplamente reconhecida a qualidade dos alunos formados em nossas universidades públicas, fato este comprovado pelas diversas oportunidades oferecidas aos mesmos por empresas e grupos de pesquisa no exterior. E isto é mérito nosso, embora fique preocupado com o fato de esta força de trabalho especializada não poder ser melhor aproveitada no próprio país.


    3. O que lhe motiva a participar de sociedades científicas, e em especial da SBrT? Da sua experiência na diretoria, gostaria de destacar algum ponto?

    As sociedades científicas são uma importante extensão do que fazemos na academia. Elas nos permitem uma interação maior com colegas e pesquisadores que trabalham em áreas afins, partilhando experiências e conhecimentos. Sobretudo, através de seus encontros, em uma interação extremamente benéfica, elas permitem que um estudante tenha a oportunidade de se inserir no universo da pesquisa e da busca pelo conhecimento, interagindo desde cedo com pessoas mais experientes. É uma oportunidade inigualável para aqueles que desejam se inserir no meio acadêmico e de pesquisa.

    Atuando na área de telecom e em uma universidade pública, seria impossível não estar vinculado à SBrT aqui no Brasil. Convidado pela Professora Marta Rettelbusch de Bastos, fiquei muito feliz em participar da diretoria da Sociedade, inicialmente no período de 2012 a 2013 sob sua presidência e, em seguida, no período de 2014 a 2015 sob a presidência do Prof. Paulo Cardieri. Com sua larga experiência em gestão, a Profa. Marta liderou a reorganização da Sociedade, a começar pelo sistema de ampliação e manutenção de sócios e cobrança de anuidades, deixando-a mais robusta e mais pró-ativa. Também na diretoria conseguimos consolidar uma ação de apoio à participação de alunos de iniciação científica e tecnológica em nossos simpósios, com uma ajuda financeira concedida a aqueles que tivessem trabalhos aceitos.


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

    Minha primeira participação foi no simpósio de Fortaleza em 2001, com um trabalho sobre simulação de enlaces de fibra ótica afetados pelo mecanismo de dispersão do modo de polarização. Havia saído recentemente da empresa Furukawa e estava em busca de novos projetos e colaborações. Mas creio que a contribuição da qual mais me orgulho tenha sido a organização do Simpósio Brasileiro de Telecomunicações em Curitiba, em 2011. Com auxílio dos professores Richard Demo Souza, Marcelo Eduardo Pellenz e Evelio Martín García Fernández na Comissão Técnica, organizamos um evento que, creio, resgatou a autoestima da Sociedade após o problemático evento do ano anterior, ocorrido em Manaus. Não só conseguimos organizar um simpósio de elevado nível técnico, mas com elevada participação e um programa social que deixou boas lembranças em todos.


    5. Considerando que a SBRT é um fórum que reúne profissionais de Telecomunicações e Processamento de Sinais no Brasil, alguma ideia de como podemos ampliar a abrangência da nossa sociedade?

    A maior dificuldade de nossas sociedades científicas e acadêmicas diz respeito à atração e manutenção de nossos associados. Em particular, a atração de profissionais atuantes em empresas deveria ser um foco de ações de sucessivas diretorias. Estimular a interação entre membros da academia e do setor produtivo é um constante desafio. Naturalmente, é necessário que haja atratividade, que precisa ser estimulada. Nesse quesito, penso que ações de divulgação, de oferta de palestras e treinamentos possam contribuir para ampliar tal interação. Com a utilização cada vez maior de plataformas de comunicação, de forma síncrona e assíncrona, temos à disposição uma ferramenta maravilhosa para a interação e discussão de problemas. Podemos agora agendar eventos e interagir em qualquer hora e lugar. O arcabouço de conhecimentos gerado e acumulado pelos membros da Sociedade é um valioso patrimônio que não pode ficar restrito ao ambiente acadêmico. E essas ferramentas podem ser usadas para convidar palestrantes, inclusive do exterior, com os quais a comunidade e pessoas ligadas ao setor produtivo possam interagir.


    6. Considerando que o senhor tem contribuído no mundo acadêmico, e no desenvolvimento tecnológico em projetos com empresas. Quais as maiores dificuldades nesses dois mundos? Como fazer para um interagir melhor com o outro no Brasil?

    Minha interação entre o mundo acadêmico e o setor produtivo teve início no doutorado. A Alemanha é exemplo de um país que investe fortemente em inovação. Muito do que se produz nas universidades e institutos de pesquisa é realizado em colaboração com a indústria. Muitos projetos somente são concretizados se houver parceria entre empresas e os institutos de pesquisa e universidades, com aporte de contrapartida. No Brasil esse nível de interação ainda é pequeno, embora acredite que não há empresário que não acredite na necessidade de maiores investimentos em atualização tecnológica e fomento à inovação. Vemos agora ferramentas de inteligência artificial e aprendizado de máquina serem empregados nos mais diversos setores. E para isso há necessidade de conhecimento especializado. Nesse aspecto, nossa comunidade que trabalha em processamento de sinais tem muito a oferecer. Estamos vivendo momentos de grandes mudanças no Brasil e no mundo, mas temos que conviver no setor empresarial com imediatismos e questões de sobrevivência. É um aspecto cultural, mas também compreensível. Contudo há bons exemplos de empresas, nas quais a pesquisa e inovação são parte integrante de seu planejamento estratégico e de longo prazo. A ciência brasileira tem gerado conhecimentos e se mostrado à altura dos desafios. Veja-se agora, nesse período trágico de pandemia, em que diversos colegas, em regime de colaboração, conseguiram desenvolver produtos e soluções tecnológicas para combater o novo Coronavírus, desde máscaras de proteção a ventiladores pulmonares. E tais conhecimentos e produtos tem sido absorvidos por algumas empresas brasileiras. Por que não conseguimos fazer isto também em outros setores? Precisamos de uma pandemia para descobrir que essa interação é benéfica e necessária?


    7. Quais suas referências profissionais?

    Temos sempre referências próximas e distantes. As próximas são todos aqueles, em particular professores, com quem convivemos e nos estimularam com seus conhecimentos, entusiasmo e motivação ao longo de nosso percurso. A escola é um ambiente fundamental para o crescimento e desenvolvimento de todos nós. Na Austrália ouvi dizer que a escola precisa ser um ambiente divertido, no qual os alunos tem prazer em aprender. Nesse sentido, minhas melhores referências são aqueles que me ensinaram o gosto e o prazer pelo conhecimento. Em particular, os professores Armando e Délio no Ensino Médio, exemplos de dedicação e estímulo. Na área de pesquisa, durante o doutorado, não posso deixar de lembrar de meu orientador, Prof. Henning Fouckhardt que, ainda no início de sua carreira acadêmica, me apoiou na conclusão do doutorado com seu entusiasmo e energia na área de Fotônica. No Brasil, menciono o Prof. Marcelo Sampaio de Alencar, sobretudo por sua fabulosa memória e sua dedicação na divulgação da importância e história das Telecomunicações e da própria Sociedade. Nossa comunidade, embora relativamente pequena, possui agora jovens, competentes e entusiasmados docentes e pesquisadores. Esses jovens acabam também se tornando uma referência, pois sabemos que o trabalho ao qual nos dedicamos estará em boas mãos.


    8. Como o senhor tem lidado com as atividades profissionais nesse período de distanciamento social?

    Brinco que a única coisa que aprendi durante a pandemia é que estava em quarentena há mais de vinte anos e não sabia (risos). O fato de trabalharmos um grande número de horas em frente a um computador todos os dias não alterou muito a rotina nesses tempos de confinamento, com exceção, naturalmente, das aulas presenciais. Algo que já havíamos começado a fazer, como as "lives" e interações assíncronas, foram apenas aceleradas. Isto não vai nos tornar mais distantes. A humanidade vai sobreviver à pandemia. É preciso encarar o momento com certa resignação, mas também com esperança.


    9. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site, etc) que pode compartilhar conosco?

    Meus hobbies não diferem daqueles de muitos colegas. Gosto de fazer caminhadas, ir a concertos, assistir filmes e de leituras. Em Curitiba gosto muito de visitar o Museu Oscar Niemeyer (MON), que sempre tem boas atrações e exposições. Os livros também são sempre bons companheiros. Recentemente, li "Portugal e o Segredo de Colombo", de Manuel da Silva Rosa, uma fascinante narrativa sobre a verdadeira identidade de Cristovão Colombo, cuja biografia é muito controversa e repleta de contradições. Também recomendo a leitura do inquietante "21 Lições para o Século XXI", do Yuval Harari, em que procura mostrar e nos alertar sobre o profundo impacto que as novas tecnologias terão sobre o desenvolvimento das sociedades humanas. A biografia de Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson, também é muito estimulante aos mostrar em detalhes as muitas facetas desse gênio.


    10. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área de pesquisa?

    O conhecimento nas áreas técnicas tem avançado rapidamente de forma que precisamos constantemente acompanhar os avanços e nos mantermos atualizados. A abordagem e solução de muitos problemas requer, atualmente, conhecimentos de várias disciplinas, sendo desafiador para um única pessoa abordar diversos assuntos com o necessário grau de profundidade. Nesse sentido, o trabalho em redes de colaboração, onde cada pesquisador contribui com seu conhecimento e expertise para resolver um problema mais complexo me parece ser um bom conselho ao mais jovens. Mas como em qualquer atividade, há sempre necessidade de trabalho árduo e perseverança para alcançar os resultados. O Brasil, apesar de todas as suas dificuldades e problemas, tem evoluído no fomento e estímulo às atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Nesse sentido, é necessário cultivar um espírito mais empreendedor e comprometido com o alcance de soluções, sem nos deixar abater pelas dificuldades momentâneas.


    Bio: Recebeu o diploma e o título de Mestre, ambos em Engenharia Elétrica, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1975 e1978, respectivamente, e o grau de Ph.D pela University of Southern California (USC) em 1983. Foi Professor Assistente na PUC-Rio de 1978 a 1979 e bolsista de Doutorado na USC de 1979 a 1983. De novembro de 1983 a junho de 1984 esteve como Post-Doctoral fellow no Communication Sciences Institute of the Department of Electrical Engineering na USC e foi membro do corpo técnico da Axiomatic Corporation, Los Angeles. Está na PUC-Rio desde julho de 1984 onde é atualmente Pesquisador do CETUC e Professor Associado do Departamento de Engenharia Elétrica. Durante o ano de 1991 foi Professor Visitante no Department of Electrical Engineering na USC. Prof. Sampaio tem participado em uma série de projetos e consultorias envolvendo empresas privadas e agências governamentais. Foi co-organizador da Sessão em Resultados Recentes do Workshop de Teoria da Informação do IEEE, 1992, Salvador, serviu também como Technical Program co-Chairman da IEEE Global Telecommunications Conference, Globecom’99, realizada no Rio de Janeiro em dezembro de 1999 e como membro da comissão técnica de vários SBT e ITS. Participou, por três mandatos, da diretoria da Sociedade Brasileira de Telecomunicações, como Primeiro Secretário (2000-01) e Vice-Presidente de Desenvolvimento e Difusão (2002-03 e 2010-11), tendo sido membro de seu Conselho Consultivo no período de 2004 a 2009. Foi Editor de Área, Transmission Systems, da Revista da Sociedade Brasileira de Telecomunicações (atual Journal of Communication and Information Systems - JCIS). No período de novembro 2015 a junho 2018 atuou como Membro Titular do Comitê de Assessoramento de Engenharia Elétrica e Biomédica (CA-EE) do CNPq. É consultor da CAPES e CNPq. Suas áreas de interesse incluem teoria de comunicações, transmissão digital e processamento de sinais para comunicações. Áreas nas quais publicou mais de 200 artigos em periódicos e conferências com revisores.



    1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

    Sendo filho de militar, mudei de cidades várias vezes nos meus primeiros anos de vida. No meu curso primário estudei os dois primeiros anos em Campo Grande, MT, e os dois últimos em escola pública no Rio de Janeiro. Do primeiro ano do curso ginasial ao segundo ano do nível secundário, que por minha escolha foi feito na opção Científico, frequentei o Colégio de Aplicação da antiga UEG (Universidade do Estado da Guanabara) atual UERJ. Foi no período de final de Ginásio e curso Científico que descobri minha atração pela matemática e pendor pela Engenharia. Meu terceiro ano de Científico foi feito no Curso Bahiense, um curso preparatório para vestibular, bastante prestigiado à época. O Curso Bahiense, recrutava alunos nos bons colégios para formar turmas especiais, sem pagamento de anuidades, e alcançar os primeiros lugares nos vestibulares de instituições de ensino de prestígio. Fui recrutado para a chamada turma IME 1, considerada a mais difícil. A formação que recebi ao longo do ano de 1970 foi excelente nas diversas áreas da matemática, Cálculo, Álgebra, Trigonometria, Geometria, e que incluíam desenho Geométrico, Geometria Analítica e até Perspectiva, além de Física, Química e ..,,ufa!. O ensino era excelente, mas a rotina de ensino era dura, bem dura: aulas de 7:00 às 18:00 hs de segunda a sábado e provas aos domingos de 7:00 às 11:00 hs. Um pequeno grupo de alunos, dentre os quais eu me incluía, costumava nas noites de sábado desanuviar em noitadas na interessante vida noturna do Rio de Janeiro. Por vezes íamos quase que diretamente destas noitadas para a nossa prova dominical. Ao final do ano, finda a bateria de provas vestibulares que nos obrigamos a fazer, exaustos mas felizes, o Professor Norbertino Bahiense , dono do Curso, convidou um grupo de alunos (os mais chegados, de acordo com ele) para uma comemoração na sua casa no Leblon “Já avisei a Patroa e está tudo certo”, e lá fomos nós. O encontro estava ótimo e o Prof. Bahiense decidiu abrir a adega e liberar geral (éramos todos maiores de idade). Foi um desatino. Aquele grupo de alunos, sob euforia e alívio com o término de um ano bastante estressante, “encheu a cara” e desabou. Fui acordado horas depois por um sorridente Bahiense. Estava debaixo da mesa da sala de jantar... Sobrevivemos.

    Dentre as instituições de ensino superior para as quais prestei exame vestibular e após recomendações de vários ex-alunos escolhi a engenharia da PUC-Rio. Após o ciclo básico nos dois primeiros anos, decidi pela especialização em Engenharia Elétrica. Nesta fase, lembro com clareza de dois dos cursos lecionados por professores atuantes no CETUC (Centro de Estudos em Telecomunicações da Universidade Católica): Modelos Probabilísticos em Engenharia Elétrica, ministrado pelo Professor José Paulo (José Paulo de Almeida e Albuquerque) e Princípios de Comunicações, ministrado com elegância e simplicidade pelo Professor Leite (José Leite Pereira Filho) com base no livro clássico do Lathi. A beleza da matemática e análises envolvidas nestes dois cursos foram em grande parte responsáveis pela minha guinada na direção da área de concentração em Telecomunicações dentro da Engenharia Elétrica da PUC.

    Ao chegar aos últimos períodos do curso de graduação eu já havia estagiado na antiga CETEL, depois extinta TELERJ, e estava estagiando na Embratel, já me vendo como engenheiro desta empresa, quando recebi do Prof. José Paulo uma oferta de bolsa para o curso de mestrado oferecido pelo CETUC. Aceitei e considero que aí começou realmente a minha carreira de pesquisador. Após o término do mestrado e um ano como Professor Assistente, apliquei e fui aceito para um programa de doutorado na University of Southern California (USC), altamente recomendada pelo seu ex-aluno Professor José Roberto Boisson de Marca, devido ao seu grupo de professores atuantes na área de telecomunicações, conhecido internacionalmente por sua excelência. Iniciei o curso em setembro de 1979 e defendi minha tese no mesmo mês em 1983, sob a orientação do Prof, Robert Scholtz. Após a defesa permaneci na California por mais 10 meses como Post-Doctoral Fellow na USC e Staff Engineer em uma empresa que prestava consultoria para a Marinha, para a NASA e outras agências americanas. Foi um período muito interessante e rico em aprendizado. Retornei para a PUC em julho de 1984 com uma boa bagagem e conhecimento na minha área de atuação. Em 1991 aceitei convite para passar um ano de licença sabática da PUC como professor visitante na USC onde tive a satisfação de novamente trabalhar com o Prof. Scholtz e auxiliá-lo na orientação de alunos de doutorado.


    2. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

    Antes de responder, peço antecipadamente desculpas pela possível imprecisão de datas. Minha memória não é muito boa para datas e nomes.

    Eu sou do tempo onde um telefone fixo era considerado um bem tão valioso que tinha que ser declarado no imposto de renda. Conseguir uma linha em um tempo menor que um ano demandava “pistolão”. Em 1984, ainda morando nos Estados Unidos um professor grego meu amigo afirmou que em futuro não muito distante nós teríamos telefones pessoais que poderíamos levar no bolso da camisa. Me soou como ficção científica. Na década de 90 no Brasil surgiram os primeiros aparelhos de telefonia móvel. Eram analógicos e instalados em veículos. Por volta de 1994 surgiram os celulares portáteis, ainda analógicos e ainda longe de poderem ser levados no bolso da camisa. Eram grandes e pesados. A privatização em 1998 resultou em grande avanço e modernização das telecomunicações com a digitalização das comunicações telefônicas e posteriormente com a introdução de telefones celulares digitais com dimensões reduzidas. A crescente popularização destes últimos criou a necessidade também crescente de aumento da capacidade e eficiência dos sistemas de telefonia celular, com o consequente surgimento de diferentes e cada vez mais sofisticados métodos de acesso às redes de comunicações e tecnologias de transmissão digital, padronizadas nas chamadas gerações de telefonia celular. Na verdade, a área de telecomunicações que já englobava teorias calcadas basicamente em matemática como códigos corretores de erro e a Teoria da Informação, tem hoje forte presença do processamento digital de sinais e até das camadas superiores à camada física na classificação MAC. A área tornou-se tão vasta que a pesquisa a ela relacionada está forçosamente segmentada. Por outro lado, esta segmentação abre espaço e oportunidade para a absorção de pesquisadores com diferentes formações e pendores.


    3. O que lhe motiva a participar de sociedade científicas, e em especial da SBrT?

    Quando retornei dos Estados Unidos em julho de 1984, cheguei ao Brasil ansioso para conhecer e me inserir na comunidade acadêmica atuante em telecomunicações. Felizmente no ano anterior, em setembro de 1983, um grupo de professores e pesquisadores visionários havia fundado a Sociedade Brasileira de Comunicações. Sociedade esta que ajudou a mim e a grande parte dos pesquisadores e jovens alunos da área a tomar conhecimento, e possivelmente interagir e colaborar com as pesquisas em andamento nas diversas instituições de ensino e pesquisa. Ademais, a SBrT, através de seus simpósios anuais veio a se tornar um fórum importantíssimo para a propagação das pesquisas sendo realizadas nas nossas instituições na área de telecomunicações e em meio fundamental para que a nossa comunidade tenha presença e voz junto à comunidade científica brasileira. Reconhecendo, pelas razões citadas, a grande importância de uma sociedade científica como a SBrT, sinto-me honrado por ter sido escolhido para fazer parte de sua diretoria por três mandatos (2000-2001, 2002-2003 e 2010-20011) e ter sido eleito para seu Conselho Deliberativo por 3 mandatos, totalizando um período de 6 anos de atuação.


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

    O primeiro dos simpósios que participei, imediatamente após meu retorno dos Estados Unido, foi o SBT 1984 (só depois tornou-se SBrT), segundo da série, realizado em Campinas. Acredito ter participado de quase todos os outros, ou de sua grande maioria, seja como coautor de artigos com colegas ou alunos, como membro do comitê técnico e/ou presidente de Sessão. Vários simpósios merecem destaque. Vou me deter em alguns. O SBT 1995, realizado em Águas de Lindóia-Campinas, se não me engano foi o primeiro onde a inscrição incluía a hospedagem no hotel sede do simpósio. Me lembro que, além das atividades técnicas do simpósio, tivemos nos agradáveis ambientes do hotel, reuniões e papos divertidos e muita música noite adentro, embalados pelo som dos violões dos professores Marcelo Sampaio e João Célio. O SBT 1996 ocorrido no mês de julho em Curitiba, pois foi, apesar do frio congelante, onde conheci minha futura esposa, ainda aluna de graduação. Naquela ocasião dançamos ao som do animado banquete e posteriormente, iniciamos a nossa relação em1997 durante o seu curso de mestrado no CETUC. Considero importante e destaco a colaboração da SBrT, sob a presidência do Prof. José Mauro Fortes da PUC-Rio, e a participação decisiva de seus sócios na realização com grande sucesso da IEEE Globecom, à época a maior e mais prestigiada conferência internacional na área de telecomunicações, ocorrida no Rio de Janeiro em dezembro de 1999. A Globecom 1999 teve como Presidente o Professor José Roberto Boisson de Marca da PUC-Rio e eu atuei como coordenador técnico, juntamente com o Professor Edmundo de Sousa e Silva da UFRJ. Lembro com prazer os simpósios realizados na região nordeste, que acrescentaram à parte técnica a conhecida hospitalidade do povo nordestino. Menciono também, como satisfação pessoal, o SBrT 2003 no Rio de Janeiro, pela homenagem a mim prestada na comemoração dos 20 anos da SBrT, o ITS 2006, em Fortaleza, e o SBrT 2011, em Curitiba, onde foram anunciadas, respectivamente, as minhas promoções a Sócio Sênior e a Sócio Emérito da Sociedade.


    5. Quais suas referências profissionais?

    Tenho algumas referências profissionais de pessoas com os quais interagi na minha vida acadêmica. Destaco aqui duas delas. A primeira é o Professor José Paulo de Almeida e Albuquerque, egresso do MIT e meu professor e orientador durante o curso de mestrado no CETUC/PUC-Rio. Seu estilo e maneira de conduzir suas aulas além do trato com os alunos e seu enorme conhecimento técnico me impressionaram sobremaneira e tiveram impacto na forma das minhas aulas e orientação dos meus alunos. Prof. José Paulo foi o criador e incentivador do grupo de sistemas de comunicações do CETUC. Foi também persistente em encorajar os professores deste grupo a fazer curso de doutorado no exterior - o doutorado em engenharia elétrica, telecomunicações, ainda não tinha sido criado na PUC e, se existia, era incipiente em outras instituições. Vários de nós, professores iniciantes do grupo, seguimos este caminho, restando ao Prof. José Paulo a grande carga de ministrar vários cursos e orientar muitos alunos de pós em substituição aos ausentes. Ou seja, “carregou o piano” para que nós pudéssemos perseguir nossas ambições acadêmicas. Minha segunda referência é o Prof. Robert Scholtz meu professor e orientador no programa de doutorado na USC. Interessante e afortunadamente, eu percebi nele muitas das qualidades do Prof. José Paulo, no que tange ao cuidado na preparação e apresentação de suas aulas, no trato com os alunos e no enorme conhecimento técnico. Além disso pude contar em várias ocasiões com o seu apoio em aspectos da minha vida pessoal. Tenho tentado, não sei com que grau de sucesso, seguir estes dois exemplos na minha vida acadêmica.


    6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

    Eu tenho sim um hobby que infelizmente está suspenso. Sou fundador e participante de uma banda mista de percussão e outros instrumentos que sempre tocou em público e que por conta da pandemia não se reúne e nem se apresenta. Uma breve história: ainda adolescente eu passava férias com meus primos e primas de uma família de 10 irmãos que moravam em Diamantina, MG. Na época do carnaval, seja por falta de dinheiro ou por considerar os bailes do tradicional clube local “careta”, começamos uma pequena bateria, basicamente percussão, que tocava e cantava, “no gogó”, nas ruas ou em frente a bares. O interessante é que esse pequeno grupo cresceu a ponto de o clube parar de promover os tradicionais bailes devido à baixa frequência. O povo estava nas ruas. Em 1972 oficializamos o nome da nossa banda: Bartucada, por ser uma batucada que começou em um bar e tinha uma proposta inovadora, tocávamos e cantávamos praticamente todos os ritmos, mas que invariavelmente entravam no acompanhamento de uma bateria de percussão. Fomos, acredito eu, os primeiros a adotar este estilo, que hoje encontra eco em alguns grupos, como por exemplo, o Monobloco do Rio de Janeiro. Ao som da Bartucada tocando em praça pública para multidões o carnaval de rua de Diamantina foi considerado um dos melhores do Brasil. Hoje, quase cinquenta anos depois, estamos ativos, somos um grupo (quase uma confraria) de quase 150 pessoas de várias idades e profissões que se se reúnem e se revezam em apresentações em Minas e outros estados, É um prazeroso hobby para a grande maioria de nós, uma vez que à exceção de cantores e profissionais que atuam na ala dos metais, teclados e cordas nenhum dos demais participantes é remunerado. Todo o dinheiro recebido nos shows é revertido na própria Bartucada, promovendo reuniões musicais de congraçamento, aquisição e manutenção de instrumentos e, recentemente, na adequação, manutenção e aprimoramento do galpão alugado para abrigar nossa sede e quadra de ensaios e eventos em Belo Horizonte.


    Este meu hobby dissipa tensões e promove agradáveis reuniões com parentes e amigos (e boas cachaças) das mais diversas tendências. Está fazendo muita falta nesse período de pandemia.

    Não me ocorre agora algum livro específico que consideraria interessante como fonte de informação, mas existem alguns que foram leituras prazerosas ao longo da minha vida. Fui um leitor voraz de livros de garoto até minha fase adulta. Enquanto garoto e adolescente devorei as obras de Monteiro Lobato, as histórias de Tarzan de Edgar Rice Burroughs, algumas obras de Menotti Del Pichia, como A filha do Inca, coleções completas, e muitos outros da extensa biblioteca do meu pai. Literalmente, eu não conseguia dormir sem ler. Ainda no ginásio/científico, Machado de Assis, José de Alencar e outros clássicos da literatura brasileira, e pouco mais tarde os deliciosos livros de Jorge Amado, Capitães de Areia, Gabriela Cravo e Canela, Mar Morto, Tenda dos Milagres, além de vários outros autores. Infelizmente, em troca de outras fontes, não tenho mantido o hábito da leitura regular e constante de livros, porém posso citar dois que me marcaram: Grande Sertão-Veredas de Guimarães Rosa, que me fascinou pela narrativa intensa e interessantíssima, que incluía a invenção de palavras e expressões, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que li pela primeira vez há décadas. Leitura absorvente e fascinante, mas um pouco difícil de acompanhar, devido à existência de várias gerações e profusão de personagens. Recentemente, ganhei de um aluno colombiano, meu orientado de doutorado, uma versão em espanhol. Apesar de o aluno fornecer um anexo com as relações entre gerações e árvore genealógica que muito ajuda, a minha dificuldade com o espanhol, apesar do esforço, tem emperrado a leitura. Por vezes eu até achava que meu espanhol era razoável, ao menos era essa a minha sensação quando nos reuníamos em um bar, eu e grupos de mais de doze alunos e alunas hispânicos, para comemorar a defesa de dissertação ou tese de um deles. Mas, claro, eram os enganosos efeitos das várias rodadas e brindes da comemoração.

    7. O senhor tem orientado pessoas com formação em outros países, há alguma diferença que possa destacar da formação dessas pessoas com a dos seus orientados brasileiros?

    Tenho tido alunos e alunas de várias partes da América Latina, mais de um de cada país, Perú, Colômbia, Equador Honduras e mais recentemente Cuba. Os meus orientados brasileiros foram, e são, em sua maioria oriundos de boas instituições de ensino, muitos da própria PUC-Rio. Em termos de formação posso perceber ocasionalmente algumas diferenças, não somente devidas à formação técnica em si, mas a diferenças de ênfases que foram dadas nas respectivas formações a certas matérias que consideramos primordiais para nossos cursos. Meus alunos hispânicos têm, entretanto, conseguido superar eventuais limitações, São em geral compenetrados, dedicados, ansiosos por aprender e aperfeiçoar sua formação. Além destas características, eles são extremamente respeitosos com os professores, alegres, adoram reuniões e festas (destaque para os cubanos e cubanas) e têm me proporcionado um interessante intercâmbio de culturas. Tem sido um prazer trabalhar com eles, mas também uma fonte extra de preocupação com os prazos para finalização de seus programas e consequente interrupção de suas bolsas de estudo. Manter-se sem elas em um país que não é o seu, longe das famílias e com o alto custo de vida do Rio de Janeiro, em particular os altos custos de moradias no entorno da PUC-Rio, é um grande desafio. Costumo brincar que eu acabo me sentindo um pai (por vezes bastante enérgico) de todos. Com as preocupações decorrentes.


    8. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área de pesquisa?

    Certamente é importante procurar trabalhar com um pesquisador experiente em um grupo de pesquisa consolidado em uma instituição de prestígio. No entanto, um outro fator importante, com um peso considerável, tem a ver com o entusiasmo do pesquisador principal, que seja este realmente um líder, e a sinergia desse grupo, mesmo que estejam ainda buscando uma consolidação e maior destaque em suas áreas de pesquisa.

    Me permito, entretanto, acrescentar algumas “posições filosóficas” que procurei passar para meus filhos mais velhos e procuro agora passar para minhas duas filhas adolescentes: Invista e dedique-se ao que você escolheu ou que deseja exercer como atividade na sua vida, mas lembre-se que caso frustrado nas suas expectativas, é sempre melhor procurar novos caminhos e funções do que permanecer infeliz com sua escolha. Na sua atividade profissional, respeite aqueles que te cercam e pratique a empatia, principalmente em cargos de chefia e que incluem certamente seus alunos se sua atividade for acadêmica. Seja um profissional responsável naquilo que escolheu ou que esteja exercendo, mas é bom lembrar que uma existência plena não pode prescindir de uma boa dose de humor, divertimento, alegrias recorrentes, papos despretensiosos, um tanto de irreverência e até alguma irresponsabilidade, se inofensiva.


    9. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

    Lembro que além de constituir-se em um fórum importantíssimo para a propagação das pesquisas sendo realizadas nas nossas instituições nas áreas de telecomunicações e, mais recentemente, de processamento de sinais, a existência da SBrT é fundamental para que a nossa comunidade tenha presença e voz junto à comunidade científica brasileira. Como mensagem, peço então que os leitores contribuam, ou continuem a contribuir, com a Sociedade, incentivando a associação dos jovens alunos, assim como a publicação de artigos nos simpósios e na revista da SBrT.

    Ressalto também a ótima iniciativa do Professor Edmar Gurjão de criar esta série de entrevistas envolvendo sócios da SBrT. Sugiro portanto aos leitores que acompanhem esta série, que, como demonstrado pelas duas entrevistas que precederam a esta, dos colegas professores Hélio Waldman e Hélio Magalhães de Oliveira, contém colocações, informações e narrativas muito interessantes e que, tenho a certeza, continuarão com entrevistas futuras de personagens de grande importância e destaque na história de nossa sociedade.


    Bio: Graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1980), mestrado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1983) e doutorado na École Nationale Supérieure des Télécommunications (1992). Professor adjunto de Estatística na Universidade Federal de Pernambuco desde 2015. Paraninfo de dezesseis turmas de formandos em Engenharia Elétrica-Eletrônica/Engenharia da Computação e professor homenageado eleito por quarenta e nove turmas de formandos da UFPE, Recife. Ex-coordenador dos cursos de Estatística da área II - 9 turmas, cerca de 500 alunos de diversas engenharias (2016-2018), ex-coordenador da pós-graduação em Engenharia Elétrica (1992-1996). Sócio Sênior da Soc. Bras. de Telecomunicações SBrT 2019. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica e modelos/sistemas probabilísticos, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nos seguintes temas: análise e processamento de sinais, engenharia de áudio, análise de multirresolução, algoritmos rápidos, transformadas de wavelets, corpos finitos, teoria da informação aplicada, transformadas de corpo finito, análise de sinais genômicos, modulação e análise de sinais, codificação de canal, modulação codificada, retículados, Autor do livro "Análise de Sinais para Engenheiros: Uma Abordagem via Wavelets", Brasport Livros e Multimídia Ltda, 1ª edição - 2007, "Análise de Fourier e Wavelets", Editora universitária UFPE. E-book 2012: "Engenharia de Telecomunicações", "Collectio Poemata in Latinum", 2011-2017 (vol I 51p., vol II 57p. vol. III 51p., vol IV, 59p., vol. V, 65p. vol VI, 66p., vol. VII, 84p., vol. VIII, 70p., vol. IX, 59p.). Homenageado da Sociedade Brasileira de Telecomunicações em 2018, nos 35 anos da criação. Orientou 25 trabalhos de Iniciação Científica, 13 dissertações de Mestrado (+4 co-orientações) e 3 teses de doutorado.



    1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

    Minha formação foi iniciada antes dos cursos formais. Sou de uma família de professores (pai e mãe), com um aguçado interesse científico no lar. Li os 32 volumes da coleção de Júlio Verne, Life, o mundo e nós, enciclopedia Labor, tesouro da juventude, Victor Hugo e tanta coisa interessante. Meu pai graduou-se em Química industrial aos 21 anos, na Universidade de Pernambuco, no ano 1952. Minha tia, farmacêutica na escola de medicina em 1947. Época em que poucos tinham acesso a cursos superiores. Já descobri, ainda criança, que não queria biologia/medicina, artes, direito: sempre me sai melhor em exatas. Minha opção por engenharia elétrica se deu por dois motivos: o exemplo do meu pai que abandonou a formação superior em Química pelo fascínio nele imprimido pela "nova" eletrônica. Adquiriu o cinema Rio Branco (hoje o mais antigo cinema em funcionamento na América Latina) e montou uma oficina de Eletrônica. Tornou-se professor de Física e Matemática superior na Faculdade de Formação de Professores em Arcoverde. Em segundo, tratava-se do curso de maior média, o mais reputado por quem almeja uma formação científica sólida (desejo por excelência). Na oficina, representante autorizado das marcas mais relevantes (Philco, Motorola, Philips, Nordsom, ABC a voz de ouro etc.), muito jovem, trabalhei auxiliando meu pai em reparo de equipamentos, uma motivação para a minha escolha. Minha formação de graduação foi na Universidade Federal de Pernambuco, em Engenharia Elétrica em 1980, aos 21 anos (inexistia um curso de engenharia eletrônica, em vias de criação na época). Eu sempre almejei trabalhar com ciências. O que me conduziu para a área de Telecomunicações? Na época, parcos doutores e poucos pesquisadores. Na UFPE dos anos 70, a melhor opção de orientação foi Dr Valdemar Rocha Jr (ligado á pós-graduação, orientando IC). Minha escolha não foi por achar a área a mais interessante: eu preferia máquinas elétricas. Tive opção de após graduado, conseguir contrato com a Chesf e com a Philips (o diretor conhecia minha família: cheguei a ter entrevista na qual me foi oferecida vaga, e possibilidade de ir à Eindhoven). Perguntei aos meus pais se eles me "bancariam" para ingressar no mestrado na UFPE, sem bolsa. Eles não hesitaram e me apoiaram de olhos fechados. Ingressando no magistério superior em 1983 (aos 24 anos), passei algum tempo programando doutoramento. Casei-me. Minha esposa desejava fazer doutorado no exterior e me fez a proposta: o primeiro que conseguir aceitação e bolsa, o outro segue. Assim foi a minha "escolha" para a França. Meus contatos eram UK. Mas ela conseguiu rápido uma bolsa COFECUB em Paris, centro em que qualquer área de conhecimento possui boas opções. Fui conduzido à ENST, uma grand école. Tive a enorme oportunidade de ser orientado por um professor (Professor, não maître de conf) mais renomado em IT na França: Gérard Battail. Fiquei por mais de 30 anos concentrado nesta área de atuação, particularmente IT, com incursão em Processamento de Sinais, por influência do meu maior colaborador: Ricardo M. Campello. Fim de carreira, fui afastado para área lateral: estatística, onde fui bem acolhido. No meu caso, não há as desejáveis de histórias de sucesso (e talvez inspiradoras), partindo de pais analfabetos, passando fome, sem recurso para livros ou mesmo passagens. Tive recurso para adquirir todos os livros do curso de graduação e carro próprio para ir à universidade. Trata-se pois da vida mais para um "Maxwell" do que para um "Faraday" (para aqueles que curtem biografias de cientistas).


    2. E a Matemática, o que ela representa para o senhor? Pode citar uma teoria, teorema ou algo mais específico na Matemática que lhe fascina?

    A matemática é a base de toda a ciência e a linguagem universal. É a coisa mais bela criada! De teoria criadas, nada como a teoria da evolução e seleção natural. Ligado à matemática discreta, Galois e Abel são destaque. Na minha avaliação, não deixo de fora as múltiplas contribuições de René Descartes: acho que não são valorizadas à medida do que valem. Admiro também conceitos de entropia e ordem (Ludwig Boltzmann e Josiah Gibbs), e a teoria da informação de Claude E. Shannon (informação é um conceito tão relevante quanto a vida). Entre os físicos, registro minha admiração por Niels Bohr e Oliver Heaviside. Agrada-me e inspiram-me polímatas e gênios tais como J. Von Neumman e Henri Poincaré. Mais recentemente, tenho experimentado um fascínio particular pelos trabalhos magníficos de Georg Cantor, cuja elegância e criatividade me surpreendem, e pelas apresentações didáticas e inteligentes de Etienne Ghys (assisti praticamente todas!). De teoremas, há alguns cujas provas me fazem salivar... O teorema central do limite de George Pólya é um deles. O 2º teorema de Shannon (capacidade do aditivo canal gaussiano), demonstração extraída do clássico livro Wozencraft-Jacobs, causou-me grande impacto. E, hors concours: O Lema de Borel-Cantelli!


    3. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

    O pior que pode/poderia acontecer é manter o sistema de telecomunicações como público: apenas ineficiência e atraso tecnológico - uma receita para desastre. As privatizações, mesmo que aparentemente conduzidas sob negociatas, foram úteis. E devem continuar, abrindo mais o mercado para a iniciativa privada (é preciso gerar concorrência). As mudanças são decorrentes de dos avanços da tecnologia: as comunicações digitais, os equipamentos se transformaram em computadores digitais, e principalmente o uso de redes WAN, LAN, PAN, MAN ou IoT. A capacidade de interligação proporcionada pela rede IP é avassaladora e inevitável. Hoje não existe mais a área telecom: é uma obrigatória simbiose com redes de computadores (em maior ou menor porte).


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

    Tive meu primeiro trabalho na SBrT aceito em 1990, enquanto concluía meu doutorado. Desde então, contribui em ITS 1990 Rio de Janeiro; SBrT 1993 Natal; SBrT 1995 Águas de Lindóia; SBrT 1996 Curitiba; SBrT 1997 Recife; ITS 1998 São Paulo; SBrT 1999 Vila Velha; SBrT 2000 Gramado; SBrT 2001 Fortaleza; ITS 2002; SBrT 2003 Rio de Janeiro; SBrT 2004 Belém; SBrT 2005 Campinas; ITS 2006 Fortaleza; SBrT 2007 Recife; SBrT, 2008 Rio de Janeiro; SBrT 2009 Blumenau; ITS 2010 Manaus; SBrT 2011 Curitiba; SBrT 2013 Fortaleza; SBrT 2015 Juiz de Fora; SBrT 2018 Campina Grande; SBrT 2019 Petrópolis. A registrar, quase que invariavelmente dividi a mesa nos jantares com a equipe EE de Campina Grande, invariavelmente bem acolhido. Outros fatos a destacar foram longas e frequentes conversas, em repetidos eventos, com parceiros como Roger Hopfel, Paul Jean Jeszensky e Walter Godoy Jr (in memoriam). Em 2007, no XXV SBrT, muito envolvimento e trabalho, como co-coordenador técnico e presidente da comissão de iniciação científica. A promoção para sócio sênior e escolha como homenageado nos 35 anos da SBrT em 2018 no SBrT de Campina grande foi também ocasião marcante. Alguns fatos pitorescos de boa recordação incluíram uma apresentação plenária de Reginaldo Palazzo, que após o final do tempo, só havia introduzido parte da notação para abordar o problema (e me gerou a expressão acadêmica: tão cabeludo e intricado quanto um artigo de Palazzo :-)) ou uma apresentação irreverente e maluca de Abraão Alcaim. As tais apresentações-relâmpago, introduzidas por Rafael Dueire no ITS 2010 foram um exercício interessante. Sem contar com as danças amazonenses de certos participantes...


    5. Quais suas referências profissionais?

    Certamente os irmãos Campello de Souza (Fernando e Ricardo). Gérard Battail mostrou-me ética, valores acadêmicos e profissionalismo equilibrado. Sólon de Medeiros Filho foi um professor e profissional motivador. Richard W. Hamming com suas aulas, citações, colocações, deve ser inspiração para qualquer engenheiro. Em Telecomunicações, certamente Edwin Howard Armstrong e Maurice Deloraine pelas suas múltiplas e criativas contribuições. Fora da elétrica, localmente, Washington Amorim Jr é uma das minhas referências.


    6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

    Ah, poucos. Nenhum? Talvez experimentar bons vinhos... Um pouco de poesia (da forma mais despretensiosa possível). Latim. Traduções livres para latim (estilo: solemne est vexillum; ou solemne ex "Aires universitas ad pernambucum"). Alguma fonte interessante para compartilhar: o livro R. Bourgeron, 1300 Esquemas Circuitos Eletrônicos, Hemus; Edição: 4ª (1 de janeiro de 2002), ISBN 978-8528901160O livro Hamming, Richard W. (1962). Numerical Methods for Scientists and Engineers. New York: McGraw-Hill.; second edition 1973 também é de enorme valia para engenheiros. Sites? Recomendo uso constante do Wolfram alpha: que contribuição!


    7. Na sua opinião, como formar um bom Engenheiro?

    Aqui o assunto é mais ensino. A chave do processo é a motivação. O domínio técnico é parte fundamental, mas em pouco auxilia a formar "bons" engenheiros. Uma das boas técnicas é propor desafios, questões a resolver que aguçam a vontade de solucionar problemas (e ganhar reconhecimento). A exibição de bons exemplos de técnicas inteligentes, de causar espanto e beleza, se conseguir contaminar os estudantes com seu entusiasmo pessoal. Vale tentar esclarecer que há posturas que devem ser trabalhadas diariamente, como se polindo um diamante valioso: criticismo, curiosidade, pragmatismo e desejo por aprender. Eu normalmente explico que é necessário um equilíbrio de andar sobre o fio da navalha. Se você é criticado por estar muito teórico: alô, está se afastando, volte à Terra. Mas quando for criticado por estar excessivamente prático: alô, você não está fazendo engenharia. Há bons candidatos a engenheiro, excessivamente teóricos. Outros, excessivamente práticos. Formar um bom engenheiro exige "dosar" entre teoria e prática, entre rigor e aproximação. Outro ponto que procuro mostrar é a diferença de raciocínio e de valor entre matemático e engenheiro. Para o primeiro, as hipóteses, e principalmente o rigor da demonstração é o mais importante. Para o segundo, menor atenção à prova (engineers avoid becoming too involved with mathematical rigor, which all too often tends to become rigor mortis, R. Hamming): como aplicar o enunciado no "mundo real"? O que se pode fazer com isso? Eu aprecio muito a colocação de Shannon em sua entrevista clássica a Anthony Liversidge no Omni.

    I keep asking myself: How would you do this? Is it possible to make a machine to do that? My mind wanders around, and I conceive of different things day and night. Like a science-fiction writer, I'm thinking, What if it were like this? Or, Is there an interesting problem of this type?

    Um colega meu, não sei se você o conhece, teve a iniciativa de traduzir uma alocução de Richard Hamming, intitulada então "Você e Sua Pesquisa", DOI: 10.13140/RG.2.1.2670.2244, Textos ricos como este podem ser motivadores para engenheiros em formação...

    Obs.: Aqui, o Prof. Hélio Magalhães se refere a traduação feita pelo entrevistador, que está disponível aqui.


    8. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área de pesquisa?

    As coisas mudaram muito nos anos derradeiros... Já tenho dificuldade em sugerir caminhos nestes "novos" tempos. O conselho hoje que me parece fundamental é aprender, aplicar e investir em técnicas de inteligência artificial, qualquer que seja a sua especialização. Afinal vale a citação de (Kelvin Warwick, UK cybernetics Professor at the University of Reading, England): É difícil pensar em qualquer área da inteligência humana na qual, dentro de pouco tempo, uma máquina não venha a superar nosso desempenho.

    Tempos idos, tive incluída uma citação: "If you know that a PhD is something that you want to pursue, then get it out of the way while you are still in student mode. If you go into industry and get used to making 'good money', it will be harder to return to student life afterwards." no livro Words of Wisdom, onde há alguns "conselhos" interessantes para compartilhar. Em uma das alocuções proferidas para uma das 49 turmas de formandos em engenharia em que fui professor homenageado, por dever de ofício, ousei fazer algumas recomendações (eBookfree: Alocuções Panegíricas aos Formandos em Engenharia do Centro de Tecnologia e Geociências da UFPE, 2015, DOI:10.13140/RG.2.1.4044.2003). Compartilho aqui, em resumo, apenas duas delas: (i) insistir, persistir, perseverar; (ii) é preciso amar o que você faz.


    9. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

    Quem genuinamente ama as ciências, admira as realizações da engenharia, nunca terá dúvidas - como eu - que fez a escolha certa e a melhor escolha. A beleza da engenharia é uma recompensa inestimável. A minha mensagem é repetir minha constatação pessoal: vale a pena ser engenheiro!


    Bio: Possui graduação em Engenharia de Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (1966), mestrado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1968) e doutorado em Engenharia Elétrica - Stanford University (1971). Atualmente é professor titular aposentado da Fundação Universidade Federal do ABC e da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Engenharia Elétrica, com ênfase em Telecomunicações, atuando principalmente nos seguintes temas: redes óticas; comunicações óticas; alocação de rota, espectro e formato de modulação em redes óticas elásticas; gerenciamento do espectro ótico em redes de fibras. Foi o primeiro Pró-Reitor de Pesquisa da Unicamp nos anos 1980, e da UFABC desde a sua fundação até 2009. Foi Reitor da UFABC de 2010 a 2014, quando foi aposentado compulsoriamente ao completar 70 anos de idade. Atualmente, coordena um projeto temático da Fapesp sobre novas estratégias para enfrentar a ameaça de exaustão da capacidade, no âmbito de um programa voltado para pesquisas associadas à Internet do futuro; e colabora com programas de pós-graduação na Unicamp e na UFABC.



    1. Como foi a sua formação profissional? O que lhe levou para a área de tecnologia, em especial a sua área de pesquisa?

    Entendo que a primeira escolha que resultou na minha formação profissional ocorreu na passagem do antigo curso ginasial (correspondente às atuais quinta à oitava séries do curso fundamental) para o nível secundário, que na época (1959) era oferecido em duas versões de curso: Científico e Clássico. Escolhi o curso Científico, por sentir mais afinidade com o que hoje é conhecido como STEM (do inglês "Science, Technology, Engineering and Mathematics"), embora também me interessasse por temáticas ligadas à História e à Literatura, que por sua vez me motivavam ao aprendizado de línguas estrangeiras, notadamente o inglês e o francês.

    Durante o curso científico, estava determinado a cursar o nível superior logo em seguida na USP, mas minhas preferências oscilavam principalmente entre a Física e a Matemática, com a Engenharia despontando como uma alternativa interessante em termos de prestígio social. Ocorre que em 1961, quando tive que optar, a USP decidiu que todas as sua Unidades, até então dispersas pela cidade de São Paulo onde eu morava, deveriam se mudar para o campus do Butantã. Esta decisão era dramática para mim que morava no bairro do Brás, de onde seria necessário pegar dois ônibus para ir e mais dois para voltar do Butantã todo santo dia se fosse estudar na USP.

    Inicialmente, a Escola Politécnica apresentou alguma resistência à mudança, e eu fiquei torcendo para que ela conseguisse ficar no Bom Retiro, onde eu conseguiria chegar com uma única condução. Mas a Poli logo cedeu à pressão da Reitoria (ao contrário da Faculdade de Direito, que continua até hoje no Largo São Francisco), o que me deixou aflito em busca de alternativas. Neste momento decisivo (em meados de 1961), fui contactado por um colega de classe que era e é até hoje fanático por aviões, que estava organizando um grupo para visitar o ITA, do qual eu nem tinha ouvido falar.

    Inicialmente fiquei meio hesitante pois, como eu disse ao colega, "você gosta de avião mas eu gosto de matemática". Ao que ele me respondeu de pronto: "mas pra fazer avião precisa de muita matemática!". Convencido por este argumento, juntei-me ao grupo e fomos a São José dos Campos para conhecer o ITA. Lá chegando, logo fizemos contacto com um grupo de veteranos que foram muito solícitos. Alguns carregavam na cintura suas réguas de cálculo, que me impressionaram pela facilidade de cálculo com o uso de logaritmos, sobre os quais eu já sabia alguma coisa. Mas fiquei ainda mais impressionado quando eles nos convidaram para conhecer um laboratório de eletrônica, onde um dos veteranos me mostrou alguns geradores de sinais e como esses sinais poderiam ser vistos numa tela de osciloscópio.

    Para coroar o "show" de eletrônica, ele usou dois sinais senoidais sincronizados para gerar na tela algumas figuras de Lissajous que variavam com a defasagem entre as duas ondas. Na ocasião, fiquei fascinado com esta demonstração, pois ela parecia dar vida à matemática que, até então, parecia viver apenas em equações escritas no papel. A partir deste episódio, adotei o ITA como minha primeira opção, e tive a felicidade de conseguir uma das 100 vagas oferecidas aos 2000 candidatos de então.

    No ITA recebi uma boa formação profissional como Engenheiro de Eletrônica, mas não havia ainda espaço para receber a formação de pesquisador que eu almejava. Felizmente, porém, tive a oportunidade de interagir com alguns professores que haviam se doutorado no Exterior, e que me estimularam a seguir este caminho. Durante o quinto ano (1966), estagiei na Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), um órgão do CNPq que mais tarde deu origem ao INPE. Naquela ocasião, o CNPq tinha um convênio com a NASA, pelo qual esta conferia um "international fellowship" a bolsistas do CNPq indicados por este, naturalmente por consulta à CNAE, para fazer pós-graduação em instituições americanas. Para obter esta condição, eu precisaria conseguir admissão numa dessas instituições. Fui então atrás dos formulários em papel pelo correio (não havia Internet!), fiz os testes necessários de inglês e de aptidão (GRE), e logrei admissão na Universidade de Stanford, para onde embarquei em 1967 já como "NASA Fellow", para retornar no final de 1971 com os títulos de M.Sc. e Ph.D..

    Em Stanford recebi uma formação de pesquisador, que foi fundamental para desenvolver o trabalho realizado na Unicamp de 1974 a 2006 e na UFABC de 2006 até 2014, quando fui aposentado compulsoriamente por ter chegado aos 70 anos de idade.


    2. Que transformações tecnológicas o senhor experimentou, e quais delas mais lhe impactou?

    Durante o meu curso de graduação nos anos 60, as comunicações no Brasil eram totalmente analógicas, de maneira que a primeira transformação que me impactou, já nos anos 70, foi a digitalização. Foi a digitalização que pautou a minha pesquisa sobre a transmissão de sinais digitais de voz em cabos metálicos (bifilares e coaxiais) nos anos 70, e posteriormente em fibras óticas a partir dos anos 80.

    Com o surgimento da tecnologia WDM nos anos 90, a a capacidade das fibras deu um salto, pressionando a capacidade de processamento eletrônico nos nós, e induzindo o surgimento de novas arquiteturas de rede com uso de funcionalidades fotônicas. Assim, passei a direcionar minhas pesquisas para as redes óticas, inclusive e especialmente a incorporação da fotônica na sua evolução. Atualmente, estou me debruçando também sobre a aplicação do aprendizado de máquina por reforço no gerenciamento dessas redes.


    3. O senhor experimentou a mudança nas telecomunicações no país. Como avalia o que aconteceu?

    Mudaram as tecnologias e os modelos de negócios, aquelas em sintonia com estes. As mudanças anteriores à privatização (ocorrida nos anos 70 a 80 no mundo desenvolvido, e em 1998 no Brasil) diziam respeito à crescente digitalização das redes de comunicações, visando ao melhor aproveitamento da rede de cabos metálicos instalada nas regiões metropolitanas. Com a privatização, tivemos o aprofundamento da convergência entre voz, dados e video; a predominância do tráfego IP gerado pela Internet, o crescimento desmesurado das comunicações móveis sem fio; a "mineração de banda" levando à plena utilização do espectro ótico nas redes WDM (embora com baixa eficiência que está sendo corrigida hoje com o advento das redes elásticas); e o crescente uso de fotônica nos nós da rede de fibras óticas em associação com novas funcionalidades (como roteamento, "grooming" e outras) em novas arquiteturas destinadas a acompahar a crescente capacidade dos sistemas óticos de transmissão.

    O que aconteceu foi que a universalização dos serviços de telefonia nos países ricos, alcançada nos anos 70, esgotou o álibi do modelo monopolista das Telecomunicações vigente até então desde os anos 1930, ao mesmo tempo em que a digitalização das redes e a disseminação dos computadores "mainframe" no âmbito de grandes corporações gerou uma pressão por parte destas para desmontar o monopólio a fim de facilitar a interconectividade entre essas máquinas. A partir daí a inovação na área de serviços explode, e os desafios tecnológicos mudam de natureza: no lugar da barreira da miniaturização dos sistemas, ou pelo menos junto a ela, surge forte a barreira da complexidade própria das redes multi-serviço que dão suporte à Internet.


    4. Qual foi a sua primeira participação no Simpósio Brasileiro de Telecomunicações? Nos eventos que participou, houve algum fato que gostaria de destacar?

    Participei do Simpósio Brasileiro de Telecomunicações realizado no Rio de Janeiro nas instalações da PUC em 1983, durante o qual foi realizada a Assembléia fundadora da SBrT. Na época, eu coordenava um importante convênio da Unicamp com a Telebrás, e tive a oportunidade de incentivar a participação de docentes da Unicamp no Simpósio. A partir daí, passei a participar dos Simpósios da SBrT anualmente, hábito que mantive durante décadas e ainda pretendo retomar.

    Vou destacar um fato do qual fui protagonista. Depois do primeiro Simpósio na PUC-Rio, o segundo foi realizado em Campinas, que também sediava um grupo de pesquisa na Unicamp. O terceiro foi em São José dos Campos. O quarto foi no Rio de novo, mas num hotel da Zona Sul, e o quinto em Campinas de novo, mas agora no CPqD. Para o ano seguinte, no qual eu assumiria um mandato de Presidente da SBrT, havia a necessidade de definir um local, e aí surgiu uma controvérsia: todos concordavam que seria interessante sair do triângulo Rio-Campinas-SJC onde se concentrava a maior parte da pesquisa, mas muitos temiam que seria difícil atrair um bom número de participantes para algum lugar "distante".

    Resolvi que deveríamos assumir esse risco, e consegui interessar o Prof. João Marques de Carvalho em levar o sexto Simpósio para Campina Grande, PB, onde foi realizado com sucesso. O sétimo Simpósio foi para Florianópolis, SC, que repetiu o sucesso de Campina Grande, e a partir daí o Simpósio não parou mais de circular por todo o território nacional, disseminando e encorajando o trabalho de todos.


    5. Quais suas referências profissionais?

    No espaço institucional, minhas referências profissionais são o IEEE e as instituições que ajudei a construir no Brasil: a SBrT, a Unicamp e a UFABC, cada uma com a sua missão, sua vocação e seu papel. Além dessas, tenho como referências a Universidade de Stanford e o ITA, que me ajudaram a continuar crescendo logo após a maioridade, e por extensão ao longo da maturidade e até hoje.

    É claro que, no plano do crescimento pessoal, fui influenciado por muitas pessoas, através do exemplo, da erudição e da afinidade. Poderia citar muitas, mas correndo o risco de omitir outras. Por isso vou homenagear todas em apenas duas pessoas: Aldo Vieira da Rosa, meu orientador em Stanford; e Luiz Bevilacqua, mentor da UFABC.

    De Aldo aprendi muito, não só sobre os processos ionosféricos (foco temático da minha Tese de Doutorado), mas também sobre a dinâmica da pesquisa científica no pós-guerra do século XX, particularmente no período da corrida espacial e sua esteira. Bevilacqua me abriu os olhos para a necessidade de resgatar a interdisciplinaridade da Ciência, perdida que fora nos descaminhos da especialização exacerbada durante o século XX; e me chamou para sonharmos juntos uma Universidade Interdisciplinar no ABC Paulista.


    6. O senhor tem algum hobby? Poderia nos indicar alguma fonte de informação (livro, revista, site etc.) que considera interessante?

    Como sou aposentado, meu trabalho é voluntário, tendo assim alguma semelhança com um hobby, apesar de envolver também compromissos acadêmicos que procuro honrar por uma questão de brio profissional. Sempre tentei combinar o profissionalismo com um certo amadorismo no sentido etimológico do termo, ou seja, de quem ama o que faz. Como hobby descompromissado, gosto também de estudar problemas táticos de xadrez, de responder algumas perguntas selecionadas (sobre probabilidades e outros bizus) do site Quora, e de caminhar.

    Em geral, o livro que considero mais interessante é sempre um que eu esteja lendo no momento. No caso, é "O Algoritmo Mestre", de Pedro Domingos. Mas tenho interesse por tudo! Concordo com o que disse G.K. Chesterton: "Não existe assunto desinteressante, o que existe são pessoas desinteressadas".


    7. Que conselho o senhor daria a um jovem que está iniciando na sua área?

    Vou resumir numa frase que parece absurda: "Tenha os pés no chão e a cabeça nas nuvens!". Por "chão" entendo o legado da Ciência de Galileu até hoje: a Física desde Newton até Einstein e Planck, o famigerado Cálculo, a matemática finita, a Teoria dos Jogos, a arte da modelagem de sistemas, etc.. Por "nuvens", as coisas que estão surgindo hoje no horizonte, prenunciando um futuro nebuloso mas desafiador: a Inteligência Artificial, a Internet das Coisas, os sistemas ciber-físicos etc.. Muitos hoje se iludem achando que vão dominar essas nuvens sem ter os pés bem firmes sobre esse chão. Mas o próprio Newton, ele mesmo um gigante, disse que só conseguiu ver mais longe por estar sobre os ombros de gigantes. O mesmo vale hoje para quem quiser ver mais longe ainda.


    8. Alguma mensagem que gostaria de deixar para os leitores desta entrevista?

    Vivemos um momento de grandes incertezas, dentre as quais o coronavirus é apenas mais uma, sobre a qual muitos cientistas e ativistas sociais, como o Bill Gates, já haviam nos advertido. Incertezas são sempre desconfortáveis, por isso acabam levando a (re)definições nas arenas da política e dos negócios. No regime democrático em que todos queremos viver, as definições devem levar em conta as opiniões de todos, bem como a realidade dos fatos que balizam a nossa existência.

    Cabe aos cientistas estabelecer esses fatos com base no método científico e levá-los ao conhecimento de todos, pois como disse o senador P.D. Moyniham (NY, USA): "Todos têm direito à sua própria opinião, mas não a seus próprios fatos". Daí a importância de fortalecer o ensino da Ciência nas escolas e da divulgação da Ciência através dos meios de comunicação e de museus, para que todos possam compreendê-la não apenas através dos seus frutos, mas especialmente através das suas raízes cognitivas, como sempre fizeram as religiões e ideologias.